Cirurgia bariátrica mantém alta procura no Rio de Janeiro mesmo na era das “canetas” emagrecedoras

Pacientes relatam recuperação da mobilidade, da autonomia e da qualidade de vida após tratamento multidisciplinar

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Cirurgia bariátrica mantém alta procura no Rio de Janeiro mesmo na era das “canetas” emagrecedoras

Rosângela Florentino de Sousa conta que, antes do tratamento, tinha dificuldade para cuidar do filho. Segundo ela, hoje está 65 quilos mais leve. Resultados variam de pessoa para pessoa. (Foto: arquivo pessoal / cedida e autorizada por Rosângela Florentino de Sousa)

A popularização dos medicamentos para obesidade mudou o tratamento da doença, mas não eliminou a procura pela cirurgia bariátrica. No Rio de Janeiro, onde cerca de sete em cada dez adultos acompanhados pelo SUS estão acima do peso, o número de cirurgias feitas pelo SUS entre janeiro e agosto de 2026 já superou o total de 2025. Nos planos de saúde, o estado foi o terceiro do país em número de procedimentos em 2025. Os dados mostram que a cirurgia continua fazendo parte da estratégia terapêutica para pacientes com indicação.

Para o cirurgião Luiz Gustavo de Oliveira, coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Federal de Ipanema e diretor do Instituto Metabólica, no Rio de Janeiro, a escolha entre medicamentos, cirurgia ou a combinação de tratamentos precisa considerar as características de cada paciente, as doenças associadas e a história de vida.

“A obesidade é uma doença crônica e não existe um tratamento que funcione para todos. A cirurgia bariátrica é ainda a ferramenta mais eficaz e duradoura para a obesidade grave. No entanto, precisa estar inserida em um tratamento que envolva alimentação, atividade física e acompanhamento médico e psicológico”, explica.

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“Vejo minhas fotos e isso me encanta, porque hoje me sinto outra pessoa”, conta Andréa Ferreira, que relata ter eliminado 50 quilos. Resultados variam de pessoa para pessoa. (Foto: arquivo pessoal / cedida e autorizada por Andréa Ferreira)

Quando o peso começa a limitar a vida

Foi a perda de funcionalidade que levou Cristiano Bichara Leal, 47 anos, a procurar a cirurgia. Com 1,82 metro de altura, chegou a 146,5 kg e percebeu que a obesidade já interferia até mesmo na capacidade de cuidar das duas filhas. Durante uma crise da caçula, que tem autismo e necessita de alto nível de suporte, Cristiano travou a coluna ao tentar ajudá-la e caiu no chão. A filha mais velha entrou em pânico e Cristiano não pôde ajudar nenhuma das duas.

“Naquele momento eu vi que estava sendo um entrave. Eu precisava fazer alguma coisa para me ajudar e poder ajudar minha família”, conta.

Depois da cirurgia, realizada em junho de 2024, ele chegou aos atuais 94,5 kg. Voltou a nadar e a praticar musculação, participou de uma maratona aquática e recuperou a mobilidade para brincar com a filha. Em dezembro de 2025, também realizou um sonho de infância que a obesidade vinha afastando há três décadas: conquistar o brevê de piloto. “Eu passei a ser uma pessoa funcional. Antes, eu demandava cuidados. Hoje eu consigo cuidar de alguém”, resume.

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Cristiano Bichara Leal relata que voltou a cuidar das filhas sem dificuldade e realizou o sonho de tirar o brevê de piloto. Resultados variam de pessoa para pessoa. (Foto: arquivo pessoal / cedida e autorizada por Cristiano Bichara Leal)

A dona de casa Rosângela Florentino de Sousa, 35 anos, chegou a pesar 145 kg e também percebeu que o excesso de peso limitava sua rotina e os cuidados com o filho. Mas sua decisão pela cirurgia foi diferente: antes de operar, passou um ano em acompanhamento psicológico, nutricional e praticando atividade física para ter certeza de que conseguiria seguir o tratamento. “Eu queria saber se teria capacidade de seguir tudo o que precisava depois da cirurgia”, conta.

Operada em junho de 2024, Rosângela hoje pesa 80 kg. Mantém uma rotina de exercícios de até duas horas por dia e continua em acompanhamento psicológico e nutricional. “É uma briga interna muito grande com a mente: comer ou não comer. Você tem que lutar com você mesmo”, afirma.

Andréa Ferreira, 51 anos, chegou à cirurgia depois de uma sequência de problemas de saúde. Tinha falta de ar, dores, dificuldade para caminhar e alterações de pressão e glicemia. A virada aconteceu após uma queda no banheiro, quando perdeu momentaneamente a sensibilidade das pernas, que já vinham formigando. Ela associa o sintoma ao excesso de peso e ao descontrole metabólico. “Eu falei: eu vou mudar essa situação”, lembra.

Andréa fez a cirurgia em agosto de 2024, quando estava com 124 kg. Hoje pesa 74 kg, se orgulha de vestir manequim 40, corre, caminha e já consegue completar provas de cinco quilômetros. Antes, evitava até o transporte público por causa das dores e da dificuldade para andar. Gastava muito com corridas por aplicativo para não precisar pegar ônibus.

“Hoje eu me sinto viva. Se sentir viva, se sentir bem, é maravilhoso”, diz.

Canetas emagrecedoras

Os três pacientes também tiveram contato com medicamentos para emagrecimento. Cristiano e Andréa interromperam o uso por não conseguirem manter o custo do tratamento conforme as doses aumentavam. Andréa perdeu 10 kg com o medicamento e, ao interromper o uso, recuperou 20 kg. Cristiano relata experiência semelhante: recuperou o dobro do peso que havia perdido. O reganho de peso após a suspensão do medicamento é um fenômeno conhecido e reforça a importância do acompanhamento médico contínuo, qualquer que seja o tratamento.

Segundo a nutricionista Fernanda Mattos, do Instituto Metabólica, o tratamento da obesidade precisa considerar o paciente como um todo. “Perder peso é apenas uma parte do processo. Precisamos preservar massa muscular, corrigir deficiências nutricionais, trabalhar a relação com a comida e ajudar o paciente a construir hábitos que consiga manter ao longo da vida”, afirma.

Obesidade e cirurgias bariátricas

No Rio de Janeiro, o SUS já registrou 832 procedimentos em 2026 até o fim de agosto, acima das 764 cirurgias realizadas em todo o ano de 2025. No Brasil, foram cerca de 9,8 mil procedimentos registrados até agosto e, até o fim do ano, devem superar as cirurgias de 2025. Na saúde suplementar, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), foram 4.849 cirurgias bariátricas no Rio de Janeiro em 2025, o que faz do estado o terceiro do país com mais procedimentos. No Brasil, foram 52.521 cirurgias por planos de saúde em 2025.

A demanda por cirurgias no SUS é alta. Dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro apontaram 14.389 pacientes aguardando cirurgia bariátrica em maio deste ano. O próprio Ministério da Saúde passou a estudar o uso de semaglutida em pacientes que estão na fila da cirurgia, reforçando que medicamentos e cirurgia podem fazer parte de estratégias diferentes dentro do tratamento da obesidade.

A preocupação em tratar a população, seja com canetas ou com cirurgia, é legítima. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), cerca de sete em cada dez adultos acompanhados pelo SUS no estado do Rio de Janeiro estão acima do peso: 32% com sobrepeso; 22% com obesidade grau I; 10% com obesidade grau II; e 7% com obesidade grau III.