Alunos pisam pela 1ª vez nas universidades após 2 anos de aulas remotas em Ribeirão e Franca: ‘Sensação de escola nova na primeira série’ | Ribeirão Preto e Franca

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Das 7h às 22h era o horário que Ana Paula Farias, de 19 anos, estudava todos os dias em 2019 para poder conciliar o ensino médio, com o técnico e o cursinho. Em 2020, a aprovação para ciências biológicas na Unesp de Jaboticabal (SP) chegou, mas junto com o resultado veio a pandemia.

“Eu sempre fui aluna da rede pública e eu tinha o sonho de entrar em uma boa universidade. Passei logo de primeira, tive cerca de um mês presencial e estava muito empolgada com essa nova fase. Eu ia conhecer novas pessoas, novos lugares, mas tudo acabou mudando por conta do vírus”, diz.

As aulas presenciais nos campi da Unesp de Jaboticabal e Franca, e no da USP de Ribeirão Preto (SP) foram suspensas em 17 de março de 2020 devido ao novo coronavírus. Como forma de contornar a situação, as atividades passaram a ser remotas.

Com o avanço da vacinação e a diminuição dos casos de óbitos e internação, foi anunciada a retomada presencial das universidades da região neste primeiro semestre de 2022. A decisão alegrou os estudantes, que após dois anos podem encontrar cara a cara professores e colegas de sala.

“Estou muito feliz por poder retornar às aulas depois de dois anos. Vou conhecer meus amigos que eu só tive contato por meio de mensagens e videochamadas durante todo esse tempo. Eu também não tive ainda a oportunidade de conhecer todo o campus”, afirma Ana Paula.

Aulas presenciais voltam nos campi da USP Ribeirão Preto (SP), Unesp Franca (SP) e Unesp Jaboticabal (SP) após dois anos de pandemia. — Foto: Arquivo pessoal

Sentimentos de alegria e ansiedade marcam a volta ao presencial. A USP Ribeirão foi a primeira a retomar, no dia 16 de março, enquanto em Franca alguns cursos voltaram na última semana. Em Jaboticabal, as atividades presenciais da Unesp estão previstas para 11 de abril.

A estudante de zootecnia Polianna Costa, de 22 anos, é uma das pessoas aliviadas. Ela ingressou na Unesp Jaboticabal em 2021 após trancar um curso em uma faculdade particular. Agora, ela está ansiosa para viver o sonho de estudar em uma universidade pública.

“Foi muito frustrante passar no vestibular na pandemia. Meu nome estava lá, mas não é a mesma coisa. Eu não conheço nenhum professor pessoalmente, nem meus colegas de sala. A sensação que dá é de que nós vamos entrar em uma escola nova na primeira série”, diz.

Assim como a Polianna, o estudante de direito da Unesp Franca, Gabriel Nogueira, de 22 anos, também fez uma faculdade particular, mas trancou porque tinha o sonho de cursar uma universidade pública. Ingressante de 2020, Nogueira conta que morar em república durante a pandemia foi fundamental para que ele conseguisse enfrentar a fase difícil.

Gabriel Nogueira, de 22 anos, mora com mais nove pessoas em uma república de estudantes da Unesp Franca (SP). — Foto: Arquivo pessoal

“Morar em uma república ajudou a manter a sanidade mental. A gente conseguia se isolar, mas diferente de uma pessoa que se isolava sozinha, eu me isolava em casa com mais nove pessoas. Então a gente ficava em segurança e conseguia curtir bastante entre todo mundo”, relembra.

O jovem está ansioso para frequentar a sala de aula. Em 2021, além das aulas, toda a iniciação científica foi on-line, e ele nunca chegou a conhecer o orientador pessoalmente, o que tornou as coisas menos eficientes.

“O mais legal para mim, além de encontrar as pessoas que eu só conheci on-line, é ter um contato direto com o professor. Eu acho muito importante esse contato em sala de aula, porque no on-line não tem esse ambiente que é feito para estudo, onde o aluno se sente focado para, de fato, assistir a aula”, diz.

Mãe de um menino de um ano, Polianna também relata que está com esperança que seu rendimento acadêmico melhore, pois aliar a maternidade com as aulas remotas não foi fácil, segundo ela, além de seu curso exigir muita prática.

“Eu tenho um neném, então é muito difícil estudar em casa, porque a gente não para. E tem muita coisa que não tem como aprender sem ser na prática. Tem coisa que você acha que aprendeu, mas é uma ilusão, lá na frente podemos ser prejudicados, ficou muito conteúdo para trás”, afirma.

Polianna Costa, de 22 anos, conta que seu curso de zootecnia na Unesp Jaboticabal (SP) exige muita prática e a pandemia prejudicou o ensino. — Foto: Arquivo pessoal

Prejuízos das aulas à distância

Assim como os alunos, os professores também foram afetados. Agnaldo de Sousa Barbosa, de 48 anos, é docente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Análise de Políticas Públicas na Unesp Franca, e conta que sentiu na pele o efeito da pandemia.

“Muitas pessoas podem achar que nós trabalhamos menos porque estávamos em casa, mas foi ao contrário. Lidar com essas novas tecnologias exigiu aprendizados em um tempo recorde. Somado ao medo e a incerteza, tudo isso criou uma sobrecarga sobre a saúde física e mental. Eu tive várias lesões no nervo do braço, lesão no músculo e quadro de ansiedade”, relembra.

Para ele, a volta ao presencial é fundamental, principalmente pelo fato de que parte dos alunos não tem acesso a estruturas para acompanhar as aulas, como computadores, planos de internet, ou até mesmo uma casa adequada.

Entrada do campus da Unesp em Franca, SP — Foto: Jefferson Severiano Neves/EPTV

E se não bastasse as aulas on-line, Rafaela Schimdt, de 19 anos, teve que comemorar sozinha a aprovação no vestibular. Após cursar o terceiro ano do Ensino Médio de forma remota e estudar para a prova por conta própria com materiais doados, a vaga no curso de informática biomédica na USP veio em 2021, enquanto ela estava com suspeita de Covid.

“Eu estava isolada no quarto. Tive que falar que eu passei no vestibular por trás da porta e a gente comemorou à distância. Então esse vírus esteve presente desde a minha aprovação. É muito esquisito isso, sabe? Você não sente que está na faculdade até você pisar o pé nela”, relembra.

Rafaela Schimdt, de 19 anos, passou no vestibular da USP de Ribeirão Preto (SP) enquanto estava suspeita de Covid. Um ano depois, irá frequentar as aulas presencialmente. — Foto: Arquivo pessoal

Agora, com o fim das aulas remotas, Rafaela está emocionada em poder conhecer os colegas e também utilizar os espaços da universidade, como o restaurante universitário, o ônibus, a biblioteca, além de pensar que irá conseguir ter mais foco nas aulas.

“Parece que realmente agora eu estou na USP, é bom demais. Eu não conhecia ninguém pessoalmente. Nesses primeiros dias de aula, eu estava passando reto pelas pessoas e só depois eu descobri que eram da minha sala, porque na foto de perfil era completamente diferente. Então é muito emocionante, parece também que você está muito mais imerso na aula”, diz.

Aluna grava primeira semana de aula na USP Ribeirão Preto (SP) após a pandemia

Aluna grava primeira semana de aula na USP Ribeirão Preto (SP) após a pandemia

Ambas as universidades estaduais decidiram manter o uso obrigatório de máscaras em seus espaços. No caso da Unesp, o uso segue necessário inclusive nos ambientes externos. Já na USP, a exigência é para os ambientes fechados. Além disso, há também a necessidade da comprovação da imunização contra a Covid pela comunidade acadêmica.

A estudante de informática biomédica pela USP, Graciella Favoreto, de 21 anos, está feliz com a retomada, mas a volta à normalidade é algo a ser experimentado para se ganhar confiança novamente.

“Ainda tem sido bem esquisito toda essa questão, porque os ônibus da faculdade são bem lotados, então eu me sinto com medo de entrar, o restaurante universitário também, eu já deixei de comer porque tinha uma fila muito grande, mesmo sabendo que estamos vacinados, ainda tenho receio”, afirma.

Ingressante em 2020, Graciella também faz parte dos milhares de alunos que tiveram poucos dias presenciais. Na época, ela conta que foi difícil a adaptação, mas agora, depois desses dois anos, ela está feliz em voltar.

“Estou no meu terceiro ano e nunca cheguei a pegar livros na biblioteca, eu sei também que tem academia, mas nunca frequentei, então tem coisas que quero participar e ainda não tive a oportunidade. Aos poucos estou me adaptando, os professores estão sendo muito legais também, mas a gente vai com um frio na barriga, pensando ‘será que vai dar certo?’”, conclui.

Segundo o professor Barbosa, esses dois anos marcaram a história das universidades, pois as instituições vão muito além do que o conceito de uma sala de aula. É lá onde ocorre a formação de profissionais que serão os responsáveis pelo futuro da sociedade.

“Todo mundo saiu dessa pandemia abalado, mesmo aqueles que não acreditaram nela. Foram centenas de alunos prejudicados. Tive turmas inteiras que eu nunca vi. A expectativa para o retorno é a melhor possível, vamos ter a oportunidade de experienciar tudo como realmente deve ser, porque a produção de conhecimento depende necessariamente de interrelações, isso que movimenta a universidade, não é só um prédio”, afirma.



Fonte: Fonte: G1