
A semana entre 14 e 18 de setembro começa com uma combinação de eventos econômicos e políticos capaz de ampliar a volatilidade dos ativos brasileiros. Enquanto o Banco Central e o Federal Reserve se preparam para anunciar novas decisões sobre juros, o Supremo Tribunal Federal enfrenta uma disputa interna em torno do acesso aos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Os dois movimentos serão acompanhados de perto pelos investidores. As definições monetárias afetam diretamente o câmbio, os contratos de juros, a renda fixa e as ações negociadas na Bolsa. A crise no STF, por sua vez, acrescenta incerteza ao ambiente institucional em plena reta final das eleições presidenciais de 2026.
No domingo (13), o ministro Cristiano Zanin determinou que a Polícia Federal entregasse ao seu gabinete, até as 23h, uma cópia integral do conteúdo obtido no aparelho de Vorcaro. A ordem foi emitida depois que a corporação informou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que tinha condições de compartilhar os arquivos com os integrantes da Corte.
Fachin havia estabelecido prazo de 24 horas para que a PF esclarecesse onde o material estava armazenado, quem mantinha sua custódia e em quais condições os dados se encontravam. A medida foi adotada após pedidos apresentados por Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
A discussão antecede a sessão extraordinária prevista para terça-feira (15), quando o plenário deverá analisar se há elementos para o avanço de uma investigação sobre a possível relação entre Moraes e Vorcaro. O julgamento transformou o conteúdo do celular em peça central da divergência entre os integrantes do tribunal.
André Mendonça, relator das apurações relacionadas ao Banco Master, afirmou ter recebido apenas uma cópia de segurança criptografada. Segundo ele, o material permanece em um envelope lacrado e não foi manuseado. Mendonça sustentou ainda que os documentos disponíveis para a sessão já haviam sido compartilhados com os demais ministros.
Zanin contestou esse entendimento e defendeu o acesso integral ao conteúdo. Para o ministro, os integrantes do colegiado devem ter as mesmas condições para examinar os elementos relacionados ao processo. A controvérsia aumentou a pressão sobre Fachin, responsável por conduzir uma tentativa de reorganização dos procedimentos e reduzir a tensão interna na Corte.
O episódio ocorre em meio às investigações sobre supostas fraudes envolvendo o Banco Master e às revelações de contatos mantidos por Vorcaro com autoridades públicas. O avanço das apurações elevou as dúvidas sobre conflitos de interesse e sobre os mecanismos de controle aplicáveis aos integrantes do próprio Supremo.
Na avaliação de Danilo Bragança, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o problema ultrapassa a atuação individual dos ministros. “É preciso que as instituições sejam muito fortalecidas”, afirmou o especialista, ao defender regras mais claras para a conduta de magistrados.
Embora a Bolsa e o câmbio ainda não tenham reagido de maneira proporcional à dimensão da disputa, parte dos analistas alerta para a possibilidade de uma mudança na percepção dos investidores. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, avalia que “o mercado não está precificando o risco de uma crise institucional”.
Segundo Cruz, o escândalo já contribuiu para aumentar a cautela dos clientes em aplicações de maior risco e em produtos emitidos por instituições financeiras menores. “Vemos que os clientes têm muito mais aversão ao risco”, declarou. Para ele, o Banco Central, no entanto, continua preservando sua reputação. “O Banco Central ainda é muito respeitado, interna e externamente”, afirmou.
A percepção sobre a estabilidade das instituições poderá dividir espaço com a agenda monetária na quarta-feira (16). No Brasil, a expectativa predominante é de que o Comitê de Política Monetária reduza a Selic em 0,25 ponto percentual, dos atuais 14% para 13,75% ao ano. Caso a projeção se confirme, será o quinto corte consecutivo dessa magnitude.
Analistas do Itaú consideram provável uma decisão unânime, apoiada pela desaceleração gradual da atividade econômica e pelo comportamento recente da inflação. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, influenciado principalmente pelo alívio temporário nas tarifas de energia elétrica, além das quedas em passagens aéreas, alimentos e combustíveis.
No acumulado de 12 meses, a inflação desacelerou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto. O índice ficou abaixo do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central, cujo centro é de 3%.
A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, considera que o quadro permite nova redução da taxa básica. “Esperamos que o Banco Central decida por um corte de 0,25 ponto percentual na Selic”, afirmou. A instituição projeta a manutenção do indicador em 13,75% até o final de 2026.
O cenário, contudo, ainda exige cautela. Os preços dos serviços subjacentes, que excluem componentes mais voláteis, acumulam alta de 5% em 12 meses. Além disso, o encarecimento do petróleo e os riscos associados ao El Niño podem voltar a pressionar alimentos, combustíveis e energia.
Leonardo Costa, economista da Asa, informou que a instituição reduziu sua projeção para o IPCA de 2026 de 5% para 4,8%. A revisão considera o resultado de agosto e a manutenção dos subsídios aos combustíveis, embora o analista ressalte que o balanço de riscos continua relevante.
Outro elemento observado pelo Copom será o desempenho da atividade econômica. O Produto Interno Bruto avançou 0,5% no segundo trimestre, depois de crescer 1,1% nos três primeiros meses do ano. Nesta quarta-feira, o Banco Central divulgará o IBC-Br de julho, indicador considerado uma prévia do PIB. A previsão é de retração de 0,4% na comparação mensal.
Mais do que o tamanho do corte, o mercado buscará na comunicação do Copom sinais sobre as próximas reuniões. Analistas do Bradesco avaliam que o comunicado poderá indicar se o colegiado pretende manter o ritmo de redução ou se as pressões externas exigirão maior prudência.
Nos Estados Unidos, o ambiente é diferente. A expectativa majoritária é de elevação de 0,25 ponto percentual na taxa de juros, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. A possibilidade de aperto monetário ganhou força depois que a inflação de agosto superou as projeções e três dirigentes do Fed votaram pela alta na reunião anterior.
O aumento do custo da energia representa uma das principais fontes de preocupação para a autoridade monetária americana. Uma elevação dos juros nos Estados Unidos, simultaneamente a um corte no Brasil, reduziria parte da diferença entre as taxas dos dois países. Esse movimento pode afetar a entrada de capital estrangeiro, pressionar o dólar e limitar o espaço para novas reduções da Selic.
Antes da decisão do Fed, os investidores conhecerão os dados das vendas no varejo americano de agosto. Um resultado forte poderá reforçar a percepção de que a economia permanece aquecida e aumentar as apostas em uma política monetária mais restritiva.
A programação doméstica começa nesta segunda-feira (14) com a divulgação do Relatório Focus e dos números semanais da balança comercial. Na terça-feira, o IBGE apresentará a Pesquisa Mensal de Comércio de julho, com expectativa de crescimento de 1% na comparação mensal, e o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de agosto.
A quarta-feira concentrará o IGP-10, o IPC-S, o IBC-Br, o fluxo cambial e os anúncios do Fed e do Copom. Na quinta-feira, serão divulgados o IPC da Fipe e indicadores de atividade e emprego dos Estados Unidos. A segunda prévia do IGP-M brasileiro e a produção industrial americana encerrarão a agenda na sexta-feira.
A convergência entre as definições monetárias e o julgamento no Supremo coloca economia e política no mesmo horizonte dos investidores. O comportamento dos ativos dependerá não apenas das decisões formais, mas principalmente das indicações sobre os próximos passos dos bancos centrais e da capacidade do STF de administrar a crise provocada pelo caso Master.






