
A alta renda está revendo a relação com a segunda residência.
Depois de décadas em que a casa de praia ou de campo foi tratada como símbolo máximo de conquista, uma nova lógica começa a ganhar espaço no mercado imobiliário premium: menos posse integral e imóvel parado, mais acesso qualificado, serviço e hospitalidade.
Nesse movimento, os residence clubs começam a se afirmar no Brasil. A proposta não é dar um novo nome a modelos tradicionais de férias compartilhadas, mas criar uma categoria distinta, inspirada em referências internacionais de hospitalidade de luxo e clubes proprietários.
Nos modelos de propriedade compartilhada mais conhecidos pelo público brasileiro, como timeshare e multipropriedade, a percepção de mercado costuma estar ligada ao uso compartilhado de férias, ainda que existam diferenças jurídicas e operacionais entre eles. No residence club, a lógica é outra. O cliente não busca apenas semanas de uso ou uma fração imobiliária. Busca uma composição entre segunda residência, serviços de alto padrão, curadoria, flexibilidade e pertencimento.
“O mercado não está migrando simplesmente da propriedade para o uso. Está migrando da posse isolada para o acesso qualificado,” diz Francisco Costa Neto, managing partner da Beta Advisory, consultoria especializada no segmento.
A mudança conversa com um comportamento já consolidado no exterior. O americano Four Seasons Residence Club, por exemplo, combina propriedade fracionada, resorts exclusivos, serviços e amenidades da marca. Já a alemã Kempinski Residences segue a lógica das branded residences, em que a propriedade privada vem acompanhada de spas, restaurantes, academias, piscinas e serviços de hospitalidade.
A tese que começa a chegar ao Brasil é semelhante: transformar a segunda residência em um ecossistema de lifestyle.
O ganho financeiro existe, especialmente na forma de economia com gestão e manutenção da casa, mas não é o centro da narrativa. Para a alta renda, o que pesa é a experiência sem fricção. Chegar e usar. Ter serviço, manutenção, segurança, gastronomia, governança e conveniência. A eficiência patrimonial vem como consequência de um ativo melhor utilizado, com menor esforço de gestão e menor capital imobilizado do que em uma casa integral.
O mercado brasileiro de propriedades compartilhadas já tem escala relevante. Segundo a Core Intelligence, existem atualmente 224 empreendimentos desse tipo no país, 44 mil unidades habitacionais, 1,3 milhão de frações e R$ 100 bilhões de potencial de venda. No timeshare, são 43 hotéis, 11,8 mil unidades habitacionais, 116 mil clientes e R$ 1,6 bilhão em potencial de vendas — os dados são de 2025.
O luxo deixa de ser posse e vira acesso
O luxo contemporâneo está menos preso à propriedade integral e mais ligado ao acesso certo com o grupo certo.
No mercado de alto padrão, ser dono do imóvel continua importando. Mas já não basta. O que diferencia um projeto é a capacidade de transformar metros quadrados em ecossistema: gastronomia, bem-estar, esporte, serviço, agenda cultural, comunidade e marca.
Os estudos da Core Intelligence apontam que o mercado está saindo da pergunta “quantas semanas consigo vender?” para “qual comunidade consigo construir?”. Nesse novo território, marca não é logotipo. É redução de risco percebido.
Em projetos compartilhados de alta renda, uma marca forte ajuda a sustentar preço, acelerar conversão, qualificar o público e aumentar a chance de recompra, indicação e recorrência. “Em residence clubs e destinos proprietários, a marca precisa estar ligada à entrega, operação e experiência. A assinatura só tem valor quando o cliente percebe consistência,” diz Neto.
Para o comprador, a marca funciona como uma garantia informal de que o ativo será entregue, mantido e operado no padrão prometido. Para o incorporador, vira ativo econômico.
Além disso, a hospitalidade passa a ser tão relevante quanto a incorporação. O cliente não quer apenas uma fração de uma casa. Quer viver a sensação de segunda residência com serviço de resort, curadoria e ausência de atrito operacional.
A consolidação dos residence clubs no Brasil
O Resid Club, empreendimento de propriedade compartilhada e clube privado de luxo em Búzios, é um dos exemplos dessa tentativa de construir uma categoria mais aspiracional no Brasil.
Apoiado na ideia de “luxo descalço”, o projeto combina casas, bangalôs compartilhados, beach club exclusivo e uma experiência proprietária na Ilha Rasa, em Búzios, criando uma camada adicional de exclusividade.
Entre os sócios está o chef Alex Atala, responsável pela curadoria gastronômica do complexo. A estrutura prevê 10 casas, 60 bangalôs compartilhados e um beach club. O objetivo não é apenas vender frações, mas criar um destino proprietário, no qual o cliente não se sinta apenas comprador, mas membro.
Esse é um ponto crítico para o setor. Em destinos turísticos, fluxo não basta. Turismo atrai. Imobiliário fixa. Para virar tese de segunda residência, o lugar precisa converter visita em vínculo, com confiança, escassez, percepção de valorização e capacidade de retorno.
O mercado brasileiro já começa a apresentar exemplos que ajudam a consolidar essa categoria. Em Rio Quente (GO), a Aviva desenvolveu o InCasa Private Residence Club, empreendimento em operação integrado ao complexo Rio Quente Resorts. Posicionado no segmento mais elevado dos residence clubs da companhia, o projeto reúne casas privativas de alto padrão, serviços personalizados pay per use, concierge, acessos privativos, gestão profissional e acesso à infraestrutura do resort, combinando o conceito de segunda residência com hospitalidade premium.
A empresa também lançou o InCanto Residence Club, na Costa do Sauípe (BA), com inauguração prevista para 2029. O projeto amplia a presença desse modelo em um dos principais destinos turísticos do país, apostando em experiências exclusivas, serviços e uma proposta voltada ao uso recorrente por seus membros em uma modalidade inovadora de gestão de pontos.
Há ainda iniciativas como a OwnerInc, em Gramado, que atua no desenvolvimento, incorporação e gestão de propriedades residenciais compartilhadas de padrão premium. O movimento mostra que o residence club não é apenas um produto imobiliário, mas uma tentativa de integrar propriedade, hospitalidade, marca e comunidade.
Se essa nova geração conseguir cumprir a promessa, o mercado compartilhado pode ocupar um espaço diferente no Brasil: o de solução premium para quem quer acessar ativos de alto valor sem carregar sozinho o custo, a gestão e a ineficiência da posse integral.
A oportunidade está menos em vender semanas e mais em construir pertencimento e inaugurar uma nova lógica de consumo para a alta renda.







