
Em um cenário de reorganização das cadeias globais de produção, aceleração da transição energética e crescente disputa internacional por investimentos, a produtividade voltou a ocupar o centro das estratégias de desenvolvimento das principais economias. Para o Brasil, essa discussão vai muito além dos indicadores conjunturais. Diz respeito à capacidade do País de construir um modelo de crescimento mais competitivo, inovador e sustentável nas próximas décadas.
A estabilidade macroeconômica, o equilíbrio fiscal e um ambiente regulatório previsível são pilares indispensáveis para estimular investimentos e fortalecer a confiança. Mas esses fatores, embora essenciais, não bastam para elevar a capacidade produtiva da economia. O crescimento sustentado depende de investimentos capazes de ampliar a eficiência, incorporar inovação e aumentar o valor agregado da produção nacional.
É justamente nesse ponto que o Brasil enfrenta um desafio histórico.
Nas últimas décadas, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro diminuiu, enquanto a produtividade avançou em ritmo inferior ao observado em diversas economias emergentes. Paralelamente, o ambiente internacional passou por mudanças estruturais. A busca por cadeias produtivas mais resilientes, a expansão da economia de baixo carbono e a corrida por minerais estratégicos criaram uma nova dinâmica de investimentos, na qual a competitividade depende cada vez mais de tecnologia, infraestrutura e capacidade de inovação.
O Brasil reúne ativos estratégicos que poucos países concentram simultaneamente. Possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, disponibilidade de recursos minerais essenciais para a transição energética, uma agropecuária altamente competitiva, um parque industrial diversificado e capacidade técnica reconhecida em diferentes áreas do conhecimento. Transformar essas vantagens em crescimento econômico duradouro, contudo, exige uma estratégia de desenvolvimento orientada pelo aumento da produtividade.
Isso implica ampliar investimentos em infraestrutura, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e qualificação profissional.
Infraestrutura moderna reduz custos logísticos, melhora a integração entre regiões, fortalece cadeias produtivas e amplia a competitividade das empresas. Da mesma forma, investimentos em inovação aumentam a capacidade nacional de desenvolver tecnologias, gerar maior valor agregado e ampliar a inserção do Brasil em segmentos mais sofisticados da economia global.
Nesse contexto, a engenharia desempenha uma função estratégica. É ela que transforma planejamento em execução, inovação em soluções concretas e investimentos em ativos capazes de elevar a produtividade da economia. Obras de infraestrutura, sistemas de energia, projetos industriais, tecnologias digitais e soluções para mobilidade, saneamento e logística contribuem para reduzir ineficiências e criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento econômico.
A discussão sobre minerais críticos ilustra bem esse desafio. A demanda global por esses insumos continuará crescendo em razão da expansão de setores como mobilidade elétrica, armazenamento de energia e equipamentos de alta tecnologia. Países capazes de transformar recursos naturais em produtos industrializados, conhecimento e inovação tendem a capturar parcelas significativamente maiores da riqueza gerada por essas novas cadeias produtivas. O Brasil possui condições para ocupar esse espaço, desde que avance na agregação de valor e no fortalecimento de sua base tecnológica e industrial.
Essa visão orienta, há duas décadas, o projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE). Ao reunir especialistas para discutir caminhos para o desenvolvimento nacional sustentável, a iniciativa parte de uma premissa que permanece atual: a competitividade não resulta apenas de bons indicadores macroeconômicos. Depende de investimentos consistentes em infraestrutura, inovação, tecnologia e formação de capital humano, capazes de ampliar a produtividade e preparar o País para os desafios de uma economia em constante transformação.
O Brasil reúne condições para participar de forma mais relevante desse novo ciclo econômico global. A combinação de recursos naturais estratégicos, energia limpa, capacidade técnica e potencial produtivo, presentes simultaneamente em poucas nações, confere ao País uma posição ímpar. O diferencial competitivo, contudo, não será definido apenas pela disponibilidade desses ativos, mas pela capacidade de transformá-los em inovação, eficiência e valor agregado.
A produtividade não é consequência do acaso. É resultado de planejamento, investimento, conhecimento e capacidade de execução. O Brasil possui os fundamentos necessários para construir um novo ciclo de desenvolvimento. Transformar esse potencial em crescimento sustentado dependerá, sobretudo, das escolhas feitas agora.
*Murilo Pinheiro, presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE)







