Petróleo volta a ultrapassar US$ 105 com a guerra e alimenta risco de inflação global

A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a pressionar os mercados internacionais nesta segunda-feira (12), com o petróleo Brent ultrapassando US$ 105 por barril nas primeiras negociações asiáticas. A intensificação dos ataques dos rebeldes houthis contra a Arábia Saudita e os riscos para o transporte marítimo na região aumentaram as preocupações com o abastecimento global de energia, a inflação e a trajetória dos juros nas principais economias.

O Brent, referência internacional para os preços do petróleo, chegou a avançar 0,4%, para US$ 105,10 por barril, enquanto o dólar apresentou leve valorização diante das principais moedas. O movimento refletiu a busca dos investidores por proteção em um ambiente de crescente instabilidade geopolítica. Posteriormente, porém, a commodity passou a recuar, diante da perspectiva de aumento da oferta russa de combustíveis e de uma possível trégua nos ataques à infraestrutura energética de Rússia e Ucrânia.

A deterioração do cenário regional ganhou força no fim de semana, quando o Aeroporto Internacional King Khalid, em Riad, voltou a ser atingido. Uma ofensiva no sábado (10) deixou pelo menos 12 mortos e mais de 300 feridos, segundo informações divulgadas inicialmente pelas autoridades sauditas. No domingo (11), uma nova ocorrência reforçou os temores de que os confrontos possam se espalhar para outras áreas estratégicas do país.

Os houthis, grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã, intensificaram as operações contra instalações sauditas em meio à guerra regional iniciada em fevereiro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington considera participar das ações militares sauditas contra os rebeldes, possibilidade que acrescenta uma nova dimensão ao conflito.

Além dos ataques em território saudita, incidentes envolvendo petroleiros aumentaram a preocupação com a segurança das rotas comerciais. Duas embarcações foram atingidas durante o fim de semana, uma nas proximidades de Omã e outra durante a passagem pelo estreito de Ormuz, uma das principais vias de escoamento do petróleo produzido no Oriente Médio.

A situação também é delicada nas proximidades do estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui uma passagem estratégica para o comércio entre a Ásia e a Europa. A Arábia Saudita apoia uma contraofensiva de forças iemenitas na região, ampliando os riscos de novos confrontos.

A combinação de ataques à infraestrutura, ameaças às embarcações e dificuldades logísticas mantém os preços da energia elevados. Mesmo sem uma interrupção generalizada da produção, o aumento dos custos de transporte, seguros e proteção das cargas pode afetar o preço final dos combustíveis e de outros produtos comercializados internacionalmente.

Risco geopolítico

O Goldman Sachs elevou de US$ 85 para US$ 90 por barril sua projeção para o Brent em dezembro de 2026. Em relatório liderado pelo analista Daan Struyven, o banco estimou que o prêmio de risco geopolítico embutido na cotação supera US$ 20 por barril.

Os analistas consideram que a adaptação gradual das rotas e dos mecanismos de abastecimento poderá contribuir para a redução dos preços nos próximos meses. Entretanto, alertam que uma nova intensificação do conflito representa um risco significativo de valorização adicional da commodity.

“Continuamos mantendo nosso cenário-base de que a adaptação da oferta do Oriente Médio acabará reduzindo os preços do petróleo, enquanto uma possível nova escalada ainda representa um risco significativo de alta”, afirmaram os analistas do Goldman Sachs, em relatório.

A perspectiva de alívio também depende dos desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia. Trump anunciou um entendimento para interromper ataques às instalações energéticas dos dois países, embora ainda existam dúvidas sobre a efetiva implementação do acordo.

Para Tim Waterer, analista-chefe da KCM Trade, os anúncios americanos contribuíram para reduzir parte da pressão imediata sobre a oferta internacional. A possibilidade de ampliação dos fornecimentos russos de diesel também passou a influenciar as cotações. “Persistem dúvidas sobre a validade e a duração de qualquer cessar-fogo desse tipo”, afirmou Waterer. Na avaliação do especialista, sem evidências mais concretas de que a trégua será sustentada, a queda das cotações tende a permanecer limitada.

A instabilidade no mercado de energia ocorre em uma semana de indicadores econômicos importantes, especialmente nos Estados Unidos. Os investidores aguardam a divulgação da inflação ao consumidor de setembro, prevista para quarta-feira (14), em busca de sinais sobre os próximos movimentos do Federal Reserve, o banco central americano.

O principal receio é que os preços elevados do petróleo prolonguem as pressões inflacionárias, dificultando o trabalho das autoridades monetárias. Custos mais altos de combustíveis e transporte podem se espalhar pelas cadeias produtivas, afetando margens empresariais e preços ao consumidor.

Na semana passada, o rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos se aproximou de 5,4%, o maior patamar desde 2002. Uma inflação acima das expectativas poderá reforçar as apostas em novas elevações dos juros, aumentando os custos de financiamento para empresas e governos.

Nick Twidale, estrategista-chefe da AT Global Markets, observa que a conjuntura combina riscos geopolíticos com uma agenda econômica capaz de provocar movimentos relevantes nos preços dos ativos.

“Em períodos mais tranquilos, manchetes geopolíticas costumam ter um impacto desproporcional nos mercados”, escreveu Twidale em relatório. Segundo o estrategista, com a divulgação da inflação americana, os pronunciamentos de autoridades monetárias e o início da temporada de balanços, “os mercados terão muito o que digerir nesta semana”.

Dólar fortalecido

A procura por segurança também sustenta a valorização da moeda americana. O dólar acumulou quatro semanas consecutivas de ganhos, sua maior sequência desde o início de 2025, beneficiado pela percepção de que a economia dos Estados Unidos dispõe de maior capacidade para enfrentar um período prolongado de juros elevados.

Na Europa, a combinação de energia cara, menor dinamismo econômico e preocupações fiscais, especialmente na França, aumenta a pressão sobre o euro.

Estrategistas do Barclays liderados por Themistoklis Fiotakis avaliam que o desempenho relativo da economia americana e as fragilidades europeias favorecem a continuidade da valorização do dólar.

“O argumento para uma ruptura do dólar em relação à faixa em que negocia há 15 meses está se tornando cada vez mais convincente”, escreveram os especialistas, em relatório. Eles ressaltam que o elevado volume de posições compradas na moeda americana pode limitar novos ganhos no curto prazo.

Analistas do Commonwealth Bank of Australia também consideram provável a continuidade dos ataques houthis contra instalações energéticas sauditas, cenário que tende a sustentar tanto o petróleo quanto o dólar. Em nota divulgada nesta segunda-feira, o banco afirmou não esperar um avanço diplomático significativo nas negociações envolvendo o Irã ainda nesta semana.

Apesar da instabilidade geopolítica e das preocupações com a inflação, o mercado acionário americano tem demonstrado resistência. O S&P 500 encerrou a sexta-feira (9) com valorização de 0,6%, permanecendo próximo de suas máximas históricas.

Parte desse desempenho é sustentada pelas expectativas de resultados corporativos robustos. Segundo estimativas compiladas pela Bloomberg Intelligence, os lucros das empresas integrantes do índice deverão crescer aproximadamente 25% no terceiro trimestre, na comparação anual.

O cenário, entretanto, impõe desafios às companhias. A manutenção dos custos elevados de energia e financiamento pode comprometer margens operacionais, sobretudo em setores intensivos em transporte, matérias-primas e capital.

Para os investidores, a questão central é determinar até que ponto o crescimento dos lucros será suficiente para compensar os efeitos de uma inflação persistente e de juros elevados. A trajetória do petróleo continuará sendo uma variável decisiva. Uma redução das tensões militares poderá aliviar as pressões sobre a economia global, enquanto novos ataques contra instalações energéticas ou rotas comerciais poderão provocar outra rodada de valorização da commodity e ampliar a volatilidade dos mercados. (Com agências internacionais)





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