
Em meio à corrida pela inteligência artificial, uma pergunta fundamental tem ficado em segundo plano: qual é o papel do ser humano em um mundo cada vez mais orientado por algoritmos?
Foi justamente essa questão que ganhou um novo capítulo quando o Papa Leão XIV escolheu a inteligência artificial como tema central de sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas (a grandeza daquilo que nos torna verdadeiramente humanos). A carta traz uma preocupação profunda com o avanço da inteligência artificial. Há um simbolismo pedagógico nesse gesto: uma das instituições mais antigas do mundo ocidental veio a público para nomear o tema mais urgente do nosso tempo.
O documento explicita algo que o mercado ainda não percebeu inteiramente: a existência de uma revolução silenciosa e extraordinariamente veloz. A IA entrou nas rotinas corporativas sem alarde, quase por osmose. Mudanças barulhentas geram alerta; as silenciosas tornam-se paisagem antes que haja tempo para decidir como gerenciá-las. Diante desse cenário, a liderança empresarial precisa encarar um paradoxo incômodo: a distância entre o discurso público sobre a tecnologia e o uso privado que se faz dela.
O cenário atual do mercado é marcado por um antagonismo claro. De um lado, há uma corrida frenética por posicionamento. Nas redes sociais e nos corredores corporativos, multiplicam-se as manifestações de quem quer demonstrar intimidade com a IA. Virou marcador de status. Existe uma ansiedade social em exibir quantos comandos se sabe escrever e quais modelos estão sendo utilizados, em conversas muitas vezes mais preocupadas em sinalizar pertencimento do que em compreender o impacto real da tecnologia.
De outro lado, na prática individual, a busca costuma ser por vantagem pessoal: fazer menos, entregar mais rápido e obter benefício particular. Trata-se de um comodismo travestido de produtividade, a lei do menor esforço vestida com a roupa da inovação. Essa desconexão importa porque a IA não possui intenções próprias; ela simplesmente amplifica o comportamento humano. Se utilizada na busca exclusiva por vantagem individual, escalará essa eficiência de forma assustadora. Se empregada a serviço de um propósito maior, o bem comum, ampliará o valor com a mesma intensidade.
O terceiro elemento desse retrato contraditório é o medo legítimo da substituição de profissões inteiras e de um futuro economicamente incerto. No entanto, o pavor de que o engenho mecânico tornasse o homem dispensável não é inédito. Os trabalhadores da Revolução Industrial sentiram exatamente o mesmo receio há mais de dois séculos.
A história mostra que o trabalho não desapareceu; ele se transformou, criando funções e setores inimagináveis para a época. Embora a velocidade atual seja incomparavelmente maior e a transição exija cuidados, o medo paralisa quando deveria orientar. A pergunta correta para os executivos hoje não é “como me protejo do que vem?”, mas “como participo da construção do que vem?”. Como o Papa Leão XIV sabiamente colocou: “recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites”.
O sucesso tecnológico costuma ser medido pela vantagem competitiva que oferece a quem a detém. Buscar resultados é vital. Uma empresa que não se sustenta não serve a ninguém. O problema surge quando a vantagem individual se torna o único horizonte. Empresas com visão de longo prazo, como a Revio, defendem que cada produto, serviço e decisão envolvendo IA deve estar direcionado à promoção do bem comum, gerando valor para além do balanço financeiro da desenvolvedora.
O equilíbrio não está em um confronto fictício entre homem e máquina, nem em frear a evolução. A IA precisa do ser humano para ter sentido, pois processa e otimiza, mas não atribui valor nem propósito. Da mesma forma, o ser humano precisa da criação técnica para continuar evoluindo. Reconhecer essa interdependência muda a pergunta de “quem vencerá?” para “como caminhamos juntos?”.
Para que essa visão se converta em governança e eficiência, as lideranças precisam fazer uma pergunta fundamental antes de automatizar qualquer processo: a quem essa mudança serve? A avaliação não deve considerar apenas a redução de custos, mas também os impactos sobre as pessoas envolvidas e sua preparação para a transição.
Também é essencial manter o ser humano no centro das decisões, garantindo que escolhas que afetam vidas tenham uma assinatura humana responsável e possam ser contestadas e explicadas. Transparência é outro requisito indispensável. Clientes, colaboradores e parceiros precisam compreender quando e de que forma a tecnologia está sendo utilizada.
Além disso, a inteligência artificial deve ser empregada para desenvolver talentos, e não apenas para substituí-los. Organizações que capacitam seus profissionais constroem salvaguardas éticas mais sólidas e sustentáveis.
A inteligência artificial é a ferramenta mais poderosa já criada. Ela pode ampliar o melhor ou o pior do mercado, e fará ambos com extrema competência. A diferença não estará nos algoritmos, mas nas escolhas concretas tomadas diante de uma planilha ou de uma decisão de negócios.
O que está em jogo não é a grandeza das máquinas, mas a nossa. O futuro pertence às empresas que entenderem que o crescimento real só se sustenta quando o poder tecnológico está a serviço daquilo que nos torna, de fato, magníficos.
*Edson Hideki é sócio-fundador da Revio Tecnologia Tributária







