Nordeste perde posto de 2º maior polo de consumo do país depois de 13 anos | Economia

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Depois de 13 anos, o Nordeste vai deixar de responder como o segundo maior centro de consumo do Brasil, atrás somente do Sudeste. Em 2021, com a redução do valor do Auxílio Emergencial e a fraqueza do mercado de trabalho, a região será ultrapassada pelo Sul.

De 2020 para 2021, a fatia do Nordeste no consumo do país recuará de 18,53% para 17,46%, enquanto a do Sul vai avançar de 17,97% para 18,16%, segundo estimativa da consultoria IPC Marketing.

“O Sul é uma economia mais robusta, tem o agronegócio muito forte, muita indústria. E esses mercados mais consolidados têm uma vantagem porque retomam mais rápido”, afirma o diretor da IPC Marketing, Marcos Pazzini.

Geografia do consumo — Foto: Economia G1

A mudança de patamar do Nordeste marca uma importante mudança na geografia do consumo do país. No início dos anos 2000, a região conseguiu se consolidar como a segunda força do país por uma combinação de fatores que movimentou a economia local: foi beneficiada pela ampliação do Bolsa Família, pela política de valorização do salário-mínimo e pela ampliação dos investimentos públicos em grandes projetos.

“Esse montante de dinheiro injetado no Nordeste fez florescer um mercado que, até então, grandes varejistas não tinham explorado”, diz Pazzini.

O quadro econômico do Nordeste começou a se deteriorar com a crise fiscal iniciada no biênio 2015 e 2016, seguida pela lenta retomada nos três anos seguintes. A escassez de recursos do governo impediu grandes avanços nos programas sociais e repasses para investimentos na região.

No ano passado, o Auxílio Emergencial bastante robusto até provocou um alívio – o governo desembolsou quase R$ 300 bilhões com o programa. Agora, essa perda de participação do Nordeste no consumo do país vem na esteira de uma forte queda na renda da população.

A consultoria Tendências estima que a massa de renda vai encolher 9,1% no Nordeste este ano. O resultado será muito pior do que esperado para todo o país. Para o Brasil, a previsão é de queda de 3,8%.

Em 2020, com a ajuda do auxílio, a massa de renda cresceu 9,5% no Nordeste e 5,2% no Brasil.

“A renda tem uma relação direta com o potencial de consumo”, explica Lucas Assis, economista Tendências.

Perda de fôlego — Foto: Economia G1

A queda mais acentuada da renda nordestina se dá porque boa parte da população do Nordeste é considerada economicamente vulnerável. Ou seja, está na informalidade e é subutilizada no mercado de trabalho. Na região, 70% dos domicílios integram as classes D e E, as mais afetadas pela crise econômica atual e com renda de até R$ 2,6 mil.

“O desempenho do mercado de trabalho não vai ser suficiente para compensar as perdas sofridas pelos mais pobres”, afirma Lucas. “Há uma expectativa de retomada gradual do emprego, mas as incertezas políticas, os impactos da segunda onda (da pandemia) e o enxugamento do auxílio e de outras políticas anticíclicas não devem garantir uma plena recuperação.”

Oito em cada 10 famílias de classe média perdem renda, na pandemia

Oito em cada 10 famílias de classe média perdem renda, na pandemia

No dia a dia das famílias nordestinas, a crise atual provocou uma piora da qualidade de vida. Não há mais espaço para compras que não sejam consideradas essenciais.

‘EVITAMOS COMPRAR MUITAS COISAS`, DIZ ROGERIO

Rogerio Moraes, de 24 anos, está desempregado desde janeiro — Foto: Acervo Pessoal

Na casa de Rogerio Moraes, a renda da família não chega a ultrapassar um salário-mínimo. Desempregado desde janeiro, ele mora em Salvador com a mãe, que trabalha como cuidadora de idosos.

Nos últimos meses, Rogerio, de 24 anos, só conseguiu emprego na construção civil por falta de oportunidade em outros setores. “Eu perdi o emprego em janeiro. Agora, não tem trabalho”, afirma. “Alguns anos atrás estava mais fácil encontrar trabalho, mas tudo piorou com a pandemia.”

Com a queda da renda, a família passou a cortar gastos com água e energia elétrica. “A gente está evitando de comprar muitas coisas, comprando muito pouco”, afirma Rogério.

Ele recebia o Auxílio Emergencial até o ano passado, mas teve o benefício cortado em 2021. “Neste ano, o fim do auxílio dificultou mais ainda a nossa situação.”

`SÓ VOU AO MERCADO QUANDO DÁ PRA TRAZER O BÁSICO`, DIZ DOMINGAS

Para Domingas da Conceição do Santos, de 41 anos, a realidade não é muito diferente. Com dois filhos – um de 20 e outra de 18 anos –, ela vive mensalmente com R$ 500.

A maior parte do que consegue, R$ 375, chega pela nova rodada do Auxílio Emergencial. O restante ela junta com o que vende numa mercearia, em Salvador.

“Está crise complicou a vida de todo mundo”, afirma .”E eu posso dizer até que a minha situação está razoável, porque tem gente pior do que eu.”

Com uma renda tão curta, a família de Domingas cortou os itens supérfluos e a renda da família vai para comida e contas mensais.

“A gente só vai no mercado quando dá pra trazer o básico. Hoje, a gente vai (e o produto) está por um valor, amanhã já subiu para outro valor.”

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Fonte: G1