“Não viemos para trocar pessoas pela IA, mas para ajudar no trabalho”, diz VP da Microsoft

Com 25 anos de experiência liderando equipes de tecnologia, Ralph Haupter passou pela IBM antes de se transferir para a Microsoft, onde atuou como presidente da companhia na Alemanha e na Ásia. Há mais de 20 anos na gigante de tecnologia, hoje é vice-presidente executivo global e Chief Revenue Officer (CRO) da companhia para pequenas e médias empresas (PMEs) e clientes corporativos. “Lidero uma equipe global com um único objetivo: ajudar as PMEs a prosperarem”, afirmou o executivo. Conhecedor de mercados da África, dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia e do Oriente Médio, Haupter planeja vir ao Brasil pela primeira vez em breve para se aproximar do mercado latino-americano, que ele considera promissor para os negócios da companhia. Acompanhe a entrevista a seguir: 

Qual é o interesse estratégico da Microsoft em atuar no nicho das PMEs?
Na verdade, isso é realmente fascinante, porque, se analisarmos a realidade econômica global, veremos que cerca de 93% de todos os empregos estão concentrados nas PMEs e entre 40% e 50% do PIB é gerado por elas. Então, em primeiro lugar, isso é empolgante para nós pelo puro impacto econômico. Em segundo lugar, fica muito claro que a agilidade e, até certo ponto, a especialização setorial se aplicam perfeitamente a elas. Também é verdade que elas não operam apenas dentro de um único país, mas em vários, pois são fornecedoras de empresas globais ou têm negócios que ultrapassam as fronteiras.

Como o Brasil se encaixa nesse cenário?
Grande parte dos empregos no Brasil está concentrada nas PMEs. Elas representam 48% do PIB brasileiro. Se olharmos para o País, temos cerca de 25 mil parceiros nesse ecossistema, enquanto, globalmente, temos quase 500 mil parceiros. Em 2024 e 2025, fizemos o maior investimento em capacidade de computação e IA para o Brasil porque acreditamos profundamente que o uso local e a base de conhecimento estão, de fato, moldando essa estrutura. E então vemos o resultado na conquista de clientes, que podem ser grandes empresas. Mas acredito que, para nós, é ainda mais importante observar como as PMEs estão colocando isso em prática. Quando pensamos em tecnologia, temos quatro categorias nas quais vemos o sucesso dos clientes se concretizando: a forma como os funcionários trabalham, como interagem com os clientes, como otimizam processos e como as empresas criam novos produtos. E esses quatro pilares têm obtido enorme sucesso entre as PMEs brasileiras.

O Brasil aprovou recentemente uma reforma trabalhista que aumentou consideravelmente o número de PMEs no País. Você acha que isso afeta a percepção da Microsoft sobre como elas são vistas no mercado brasileiro?
De forma geral, acreditamos que o principal desafio das PMEs no Brasil hoje é o aumento da competitividade em um ambiente econômico cada vez mais dinâmico e global. Nesse contexto, a agenda mais relevante não é apenas regulatória, mas de produtividade. As PMEs brasileiras devem ganhar mais escala por meio da IA, já que ela permite automatizar tarefas repetitivas, melhorar a tomada de decisão com base em dados e ampliar a capacidade dos colaboradores, liberando tempo para atividades de maior valor agregado. Na prática, isso significa fazer mais com os mesmos recursos, o que é essencial para competir tanto no mercado doméstico quanto no internacional. Portanto, nossa visão é que o foco deve estar em como apoiar as PMEs nessa jornada de transformação digital, garantindo que elas tenham acesso às ferramentas e às capacitações necessárias para aumentar a produtividade e se tornarem mais competitivas no longo prazo.

Há cerca de seis meses, a Microsoft anunciou o lançamento de recursos de IA voltados para ajudar as PMEs, como copilotos de IA e agentes. Qual tem sido o resultado?
A Microsoft possui uma rede de parceiros capaz de capacitar as PMEs. Oferecemos um portfólio que abrange dados, infraestrutura, computação em nuvem, segurança e aplicativos de negócios, tudo em um só lugar. E, por ter sido projetado dessa forma, acaba sendo mais barato e mais eficaz para as pequenas empresas.

Os resultados disso têm sido positivos?
Sem dúvida. A era da IA em que vivemos torna tudo muito singular e, francamente, é fantástico estar focado nessas PMEs, já que a IA realmente democratiza a tecnologia para elas. No passado, era muito claro que o acesso à tecnologia tinha grande potencial de aplicação, mas elas dependiam inteiramente da disponibilidade de recursos e da capacidade de investimento financeiro destinada ao problema. A IA é muito diferente, porque proporciona a mesma velocidade, capacidade de acesso e agilidade. Isso leva à lucratividade e ao aumento da produtividade. E vemos que isso tem gerado impacto positivo, o que é bastante fascinante.

Como vocês trabalham a questão da segurança ao implementar a IA em PMEs?
Quando uma pequena empresa utiliza recursos padrão de IA, ela precisa ter a garantia de que seus dados não serão utilizados por terceiros nem divulgados acidentalmente em razão do uso dessas funcionalidades. Desde o início, deixamos claro que todos que utilizam modelos de IA na plataforma da Microsoft contam com a mesma governança e o mesmo nível de segurança existentes para todas as demais atividades realizadas em sua empresa. Portanto, o uso da IA em uma empresa é tão seguro quanto o uso do e-mail ou dos dados de seus aplicativos. Além disso, nossa abordagem é a de nos definirmos como uma plataforma na qual cada empresa pode decidir quais modelos deseja utilizar em suas aplicações. Essa é também a razão pela qual, ao utilizar hoje nossa interface de IA, o Copilot, você tem acesso imediato aos modelos da OpenAI, da Anthropic e de diversos outros fornecedores, o que representa um ambiente flexível e seguro para as pequenas empresas.

Pode citar exemplos práticos?
Se considerarmos as imobiliárias, elas conseguem melhorar significativamente seus relatórios e a apresentação de valor ao cliente, registrando uma melhoria de até 80% em seus sites. Também temos empresas do setor bancário que obtiveram aumento de 25% no engajamento dos clientes.

Como vocês lidam com as críticas de que a IA pode substituir a força de trabalho humana?
Vemos, em todo o mundo, que os governos estão muito empenhados em definir claramente como gerenciar e apoiar a força de trabalho. Mas nossa filosofia é clara: não viemos para substituir pessoas pela IA, mas para complementar o trabalho diário. Nossa visão de produtividade e desempenho está exatamente nesse contexto. Basta analisarmos nossos dados para perceber que cada funcionário consegue economizar entre meia hora e 45 minutos por dia em suas tarefas simplesmente utilizando novas tecnologias. A discussão deve ser sempre sobre como ajudamos a força de trabalho, como a protegemos e como pensamos nela em um mercado que continuará crescendo.

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