Na era da Inteligência Artificial, gestão é o que transforma velocidade em valor

Sempre acreditei que liderar transformações exige um pouco mais de coragem do que de medo. Também aprendi, ao longo da minha trajetória, que liderança não é sobre ser a maior especialista de todas as áreas, mas sobre entender o suficiente para fazer as perguntas certas, unir pessoas em torno de um objetivo comum e criar confiança para que a mudança aconteça. Em um momento em que a Inteligência Artificial avança rapidamente nas empresas, essa visão se torna ainda mais importante.

A IA entrou de vez na agenda dos negócios. Mas, à medida que sai do campo da experimentação e se aproxima do centro das operações, uma verdade fica mais clara: velocidade, sozinha, não é valor. O maior desafio das empresas não é apenas adotar novas ferramentas, mas criar as condições para que elas funcionem com contexto, responsabilidade e resultado.

Essa é, cada vez mais, uma agenda de gestão. A pesquisa global The SAP Value of AI Report, realizada pela SAP em parceria com a Oxford Economics em 2025, mostra que a IA já gera retorno concreto para as empresas. O ROI médio atual dos projetos é de 16%, com projeção de chegar a 31% em dois anos. Mas o mesmo estudo também revela que o desafio não é apenas tecnológico. Globalmente, 55% das empresas ainda não têm plena confiança na capacidade de integrar dados de forma responsável entre áreas internas, enquanto 77% demonstram preocupação com o avanço da shadow AI. O valor da IA, portanto, não depende apenas da adoção da tecnologia, mas da capacidade de conectá-la a dados, governança e operação de forma consistente.

Esse ponto fica ainda mais evidente quando olhamos para a maturidade organizacional. No relatório Superagência no ambiente de trabalho: capacitando as pessoas a desbloquear todo o potencial da IA, publicado pela McKinsey & Company em 2025, quase todas as empresas afirmam investir em Inteligência Artificial, mas apenas 1% diz ter alcançado maturidade real na adoção da tecnologia. O estudo conclui que o principal obstáculo para escalar a IA não são os funcionários, mas a liderança, que ainda não conduz essa transformação na velocidade e com a clareza necessárias.

Isso ajuda a explicar por que a discussão sobre IA é, no fundo, uma discussão sobre liderança. O estudo chinês Bridging the AI Gap, publicado em 2025 no Leadership & Organization Development Journal, mostrou que lideranças orientadas para IA aumentam a segurança psicológica e o engajamento de profissionais não técnicos no processo de inovação. A adoção bem-sucedida da tecnologia depende menos de um discurso abstrato sobre inovação e mais da capacidade de a liderança criar confiança e tornar a mudança acessível para toda a organização.

A prática de mercado reforça essa leitura. No estudo AI at Work 2025: Momentum Builds, but Gaps Remain, publicado pelo Boston Consulting Group (BCG) em 2025, a parcela de funcionários da linha de frente que se dizem positivos em relação à IA generativa salta de 15% para 55% quando há forte apoio da liderança. Esse dado é especialmente relevante porque mostra que, sem patrocínio visível, clareza de uso e segurança para aprender, a tecnologia corre o risco de se tornar apenas mais uma camada de ansiedade organizacional, e não uma alavanca real de produtividade.

Por isso, o verdadeiro valor da IA não nasce apenas do modelo, do algoritmo ou da interface. Ele surge quando a tecnologia encontra contexto de negócio. Quando compreende prioridades estratégicas, regras de compliance, impacto financeiro, relações entre áreas e objetivos de longo prazo. Sem isso, a IA pode até otimizar uma métrica específica, mas ainda assim falhar naquilo que realmente importa.

No fim, a Inteligência Artificial não reduz a importância da gestão. Ela faz exatamente o contrário: eleva o sarrafo. Exige empresas mais integradas, decisões mais bem governadas e lideranças capazes de transformar tecnologia em processo, processo em confiança e confiança em resultado. Na nova economia da IA, a tecnologia acelera. Mas é a gestão que dá direção.

*Adriana Aroulho é presidente da SAP Latin America & Caribbean

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