Metade dos executivos prevê alta nos desinvestimentos, aponta estudo da KPMG

Os desinvestimentos e as reorganizações de portfólio devem ocupar uma posição mais relevante no mercado de fusões e aquisições (M&As) nos próximos anos. Metade dos executivos ouvidos pela KPMG espera crescimento moderado ou significativo dessas operações, enquanto apenas 6% projetam retração.

Os dados fazem parte do Global M&A Outlook 2026, relatório elaborado a partir de entrevistas com 700 executivos seniores de 20 países e divulgado pela primeira vez no Brasil. O levantamento aponta uma mudança na forma como companhias administram seus portfólios, com maior utilização de vendas de ativos, cisões e outras operações societárias para direcionar recursos a áreas consideradas estratégicas.

Segundo Rodrigo Baraldi, conselheiro estratégico em M&As, o movimento representa uma mudança na percepção sobre essas transações. “Durante muito tempo, vender ativos ou promover cisões era interpretado como uma medida defensiva. O que vemos agora é justamente o contrário. As empresas estão utilizando essas operações para ganhar foco, simplificar estruturas e realocar recursos para áreas com maior potencial de crescimento e geração de valor”, afirmou.

Ao mesmo tempo, as aquisições permanecem no radar das empresas. A entrada em novos mercados e o fortalecimento das atividades principais aparecem entre os objetivos prioritários, ao lado da incorporação de competências tecnológicas e da atração de profissionais especializados.

A disposição para fechar negócios, no entanto, vem acompanhada de maior seletividade. Segundo a pesquisa, a expectativa predominante entre os participantes é realizar de três a dez transações por organização, com concentração em operações avaliadas em até US$ 1 bilhão.

Para Baraldi, esse ambiente exige maior rigor na avaliação e na condução dos negócios. “Não se trata de um ciclo de euforia. Existe capital disponível, mas as decisões estão sendo tomadas com mais disciplina e com um olhar de longo prazo. O mercado passou a valorizar não apenas a capacidade de identificar oportunidades, mas principalmente a competência para executar integrações, separações societárias e capturar sinergias de maneira eficiente”, explica.

A inteligência artificial também avança nas diferentes etapas das operações de M&A. De acordo com o estudo, ferramentas de IA generativa já são utilizadas em atividades como análise de mercado, inteligência competitiva e identificação de riscos, ampliando a produtividade e a capacidade de avaliação das empresas.

Até o momento, porém, os ganhos proporcionados pela tecnologia são considerados predominantemente incrementais. A adoção dessas ferramentas ainda não provocou uma transformação completa na maneira como as transações são conduzidas.

Na avaliação de Baraldi, a IA pode contribuir para diminuir assimetrias de informação, mas não elimina a importância da experiência das equipes responsáveis pelas operações. “A inteligência artificial acelera análises e amplia a capacidade de processamento de dados, mas a geração de valor continua dependente de fatores humanos, como governança, alinhamento entre lideranças e clareza estratégica. A execução permanece sendo o diferencial competitivo mais difícil de replicar”, disse.

O Global M&A Outlook 2026 aponta cinco forças estruturais que devem influenciar o setor ao longo do ano. Entre elas estão a definição de prioridades estratégicas diante de um cenário geopolítico fragmentado, as diferenças no apetite ao risco dos compradores, a simplificação dos portfólios como instrumento de criação de valor, o avanço da inteligência artificial na execução das operações e a maior disciplina operacional.

Baraldi avalia que essas transformações também devem se refletir no Brasil, especialmente entre companhias que atravessam processos de amadurecimento da governança e revisão de seus portfólios.

“O Brasil possui empresas em processo de amadurecimento de governança e de revisão de portfólios. Isso cria oportunidades relevantes tanto para compradores estratégicos quanto para fundos de investimento. A agenda de M&As tende a ser menos pautada pelo crescimento a qualquer custo e mais orientada pela eficiência, pela especialização e pela construção de vantagens competitivas sustentáveis”, completou.

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