Mercado Livre começa a vender remédio com prescrição e gera desespero nas farmácias

O Mercado Livre anunciou nesta quinta-feira (24) uma nova etapa de sua expansão no varejo farmacêutico brasileiro. A partir de sexta-feira (25), a companhia começará a comercializar medicamentos sujeitos à prescrição médica e à retenção de receita, incluindo antibióticos e canetas utilizadas no tratamento de diabetes e obesidade, como o Ozempic. A iniciativa, no entanto, provocou reação da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que pretende questionar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a legalidade da operação.

Inicialmente, as vendas ficarão concentradas em São Paulo, com possibilidade de entregas em até uma hora nas regiões atendidas pela estrutura logística da empresa. A iniciativa amplia o catálogo de produtos de saúde disponível na plataforma e representa mais um passo na estratégia de diversificação dos negócios da companhia.

O anúncio foi realizado durante a décima edição do Meli Experience, evento promovido pelo Mercado Livre na capital paulista. Segundo Fernando Yunes, CEO da companhia no Brasil, a decisão de ampliar a presença no segmento farmacêutico está relacionada ao comportamento dos consumidores e ao potencial de recorrência das compras.

“Pessoas que entram no Meli buscam de tudo, e percebemos que havia muita busca também por remédios. Além disso, a taxa de conversão de medicamentos é muito maior quando comparada aos demais produtos”, afirmou o executivo.

Para adquirir produtos que exigem prescrição, o consumidor deverá encaminhar a receita médica pela plataforma. O documento será submetido à avaliação de um farmacêutico antes da autorização da compra e do encaminhamento do pedido para entrega.

“A receita vai ser enviada a um farmacêutico, que vai imputar os dados nos órgãos necessários e, a partir disso, vai para a nossa logística”, explicou Yunes.

Reação das farmácias

A expansão anunciada pelo Mercado Livre abriu uma discussão sobre os limites regulatórios da comercialização de medicamentos por plataformas digitais. A Abrafarma informou que questionará a Anvisa sobre a legalidade da operação, especialmente em relação aos produtos sujeitos à prescrição médica e à retenção de receita.

No entendimento da entidade, a legislação vigente não permite a comercialização de medicamentos por marketplaces enquanto não for concluída a regulamentação específica que está em discussão na agência reguladora.

A associação fundamenta sua posição em um comunicado divulgado pela própria Anvisa em 10 de agosto, no qual a agência esclareceu que “a revogação de resoluções da vigilância sanitária não implica em autorização automática de comercialização de produtos farmacêuticos”.

Segundo a Abrafarma, a aplicação da nova legislação depende de regulamentação complementar, ainda não editada pela autoridade sanitária. Por essa interpretação, a entrada de plataformas digitais na venda de medicamentos, inclusive daqueles que exigem receita, não estaria automaticamente autorizada.

A entidade representa as 29 maiores redes de farmácias do Brasil, que somam mais de 11,5 mil estabelecimentos distribuídos por todos os estados e pelo Distrito Federal. As associadas respondem por aproximadamente 53% das dispensações de medicamentos no País, o que confere relevância econômica à discussão sobre a entrada de novos concorrentes no setor.

O questionamento da Abrafarma ocorre em um momento de transformação do varejo farmacêutico, marcado pela expansão dos canais digitais, pelo crescimento dos serviços de entrega e pela busca das empresas por maior participação nas compras recorrentes dos consumidores.

Expansão farmacêutica

A entrada do Mercado Livre no comércio de medicamentos no Brasil começou a ser estruturada em setembro de 2025, quando a companhia adquiriu a Farmácia Cuidamos, localizada no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo. O estabelecimento, anteriormente pertencente à healthtech Memed, passou a servir de base para a operação própria da empresa.

A aquisição permitiu à companhia avançar no segmento, uma vez que a comercialização de medicamentos pela internet precisa estar vinculada a uma farmácia ou drogaria regularmente autorizada.

Em março deste ano, o Mercado Livre iniciou um projeto-piloto em bairros como Vila Mariana, Paraíso e Itaim. A operação contemplava inicialmente medicamentos isentos de prescrição, vitaminas e outros produtos de saúde, com estoque próprio, atendimento farmacêutico por chat e entregas em até três horas.

A ampliação do portfólio para medicamentos sujeitos à prescrição e à retenção de receita representa uma nova fase dessa estratégia, com maior participação em categorias de consumo recorrente.

Farmácias parceiras

Além da comercialização direta, o Mercado Livre pretende incorporar redes tradicionais de farmácias ao seu marketplace. A expectativa é encerrar 2026 com pelo menos 20 redes integradas à plataforma.

O modelo previsto é o chamado 3P, no qual estabelecimentos parceiros realizam as vendas diretamente aos consumidores, utilizando a infraestrutura digital do Mercado Livre.

As primeiras integrações estão programadas para outubro, inicialmente na região metropolitana de São Paulo. A iniciativa permitirá à companhia ampliar a variedade de produtos e a cobertura de atendimento sem depender exclusivamente de sua operação farmacêutica própria.

A estratégia já encontra precedentes em outros mercados latino-americanos nos quais o Mercado Livre atua, como México, Colômbia, Argentina e Chile.

No Brasil, o avanço coloca a companhia em concorrência mais direta com redes farmacêuticas que já possuem estruturas consolidadas de comércio eletrônico, lojas físicas e serviços de entrega.

O interesse pelo segmento está associado à frequência de consumo. Diferentemente de eletrônicos e outros bens duráveis, medicamentos e produtos de saúde podem gerar compras regulares, ampliando as oportunidades de relacionamento com os usuários.

Apesar da expansão anunciada, o Mercado Livre ainda não apresentou uma meta específica de faturamento para sua operação de saúde no País.

A ampliação dos negócios, entretanto, dependerá também dos desdobramentos regulatórios. O questionamento anunciado pela Abrafarma coloca a Anvisa no centro de uma discussão que envolve concorrência, segurança sanitária e as condições para a participação de plataformas digitais na comercialização de medicamentos no Brasil.




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