Maria: ‘Comprava cinco sapatos iguais de uma vez’ | Economia

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Maria sempre ganhou bem. Trabalhou por 38 anos em cargos de liderança em duas grandes empresas. Isso não a impediu de ter que recorrer a uma sala de DA para pedir ajuda.

“Eu gastava todo o meu salário e todo o cheque especial. No dia do pagamento, não tinha um centavo. Um dia, eu cheguei para o gerente e disse: ‘recebi hoje, vim sacar e não tenho salário, o que houve?’. O pagamento tinha dado apenas para cobrir o especial e os juros. Levei um susto.”

Maria é um pseudônimo. Ela e outros participantes dos Devedores Anônimos contaram suas histórias ao g1.

O susto foi forte, mas não o suficiente para suprir a compulsão por compras. Maria torrava o salário em sapatos, bolsas, roupas, almoços para ela e os colegas, táxis, gorjetas, presentes, lanches.

“Eu comprava afeto, isso é um padrão da doença de quem é devedor. É uma doença espiritual e emocional, começa na cabeça. Eu preciso comprar porque a doença faz com que nós acreditamos que precisamos”, conta.

Qualquer ocasião banal – como uma viagem ou um aniversário – era motivo para que ela comprasse uma porção de coisas: cinco sapatos do mesmo modelo, mas com cores diferentes. O mesmo acontecia com bolsas e roupas. Vários iguais e de uma vez só.

“Eu entrava em uma loja e a vendedora sentia minha energia. Desde cedo que eu tenho essa doença. Recebi meu primeiro salário em 1973 e gastei inteiro com roupa. Você imagina por que uma pessoa inteligente, que estuda, trabalha e tem família faz isso? Eu fiz faculdade de administração, sempre trabalhei e não juntava nenhum dinheiro”, narra.

“É igual ao alcoólico, né? Ele não pode tomar o primeiro gole. E eu não posso fazer a primeira compra.”

O descontrole prejudicou Maria muitas vezes e a impediu de realizar sonhos. “Eu me lembro que recebi um dinheiro de um processo e gastei tudo. Não comprei um bem, um carro, não mobiliei a casa“, conta.

Também acarretou consequências para o filho. Ele queria fazer cursos e viagens, mas ela não conseguia pagar porque o dinheiro corria de suas mãos. Em um dos passos do programa, ela pediu desculpas a ele.

Maria procurou a irmandade em 2011, quando descobriu que se aposentaria com um terço do salário – e se desesperou diante das contas. Foi nas trocas de histórias e depoimentos das reuniões que ela conseguiu forças para travar a luta diária de frear a vontade de gastar.



Fonte:G1