Incentivos, demanda e busca por qualidade: Entenda como Cajuru virou referência regional em horticultura | Estação Agro

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“Meu pai foi um dos primeiros produtores de hortaliças na cidade. Devia existir só uns dez naquela época”, lembra o agricultor Marcos Antônio Rodrigues sobre quando as primeiras verduras, como alface e couve, começaram a crescer nas terras da família em Cajuru (SP).

Isso foi há mais de 30 anos. Hoje, existem pelo menos 120 propriedades do segmento de horticultura no município, segundo dados da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente de Cajuru. São mais de 300 hectares de terra cultivados, sendo 80 familiares.

“Tudo que fiz em minha vida foi resultado do meu trabalho na horta. Inclusive, foi com ela que ajudei meus três irmãos a se estabelecerem e com que sustento minha família. Agora, passo o que sei para os meus filhos, que já me ajudam a colher e a vender os produtos, e falam em assumir o negócio no futuro”, revela Rodrigues.

O cultivo de hortaliças, como folhas, raízes, tubérculos e frutos diversos, é feito, na maioria das vezes, em pequenas áreas produtivas, das quais é possível obter o necessário para o sustento familiar não só para consumo próprio dos alimentos, como também para a venda dos produtos.

Mas, em Cajuru, a atividade ganhou, ao longo dos anos, uma importância regional, em meio a mudanças no perfil econômico, incentivos fiscais e uma demanda crescente em grandes cidades como Ribeirão Preto (SP), a 64 quilômetros, hoje a principal consumidora das hortaliças.

Assistente agropecuário chefe da Casa da Agricultura de Cajuru, Osmar de Almeida Junior estima que 90% da produção agrícola do município tem como destino a região.

“Não é raro que uma pequena horta, de apenas um hectare, tenha mais de três pessoas trabalhando em tempo integral. Daí o fato de a maioria ser familiar. Mas, o que antes era destinado a pequenas feiras realizadas no município, foi se espalhando para as demais cidades da região, principalmente Ribeirão Preto, onde passaram a conquistar reconhecimento em consequência da qualidade”, explica.

Horta de Francisco Silveira, em Cajuru (SP) — Foto: Arquivo pessoal

Com 23% do PIB municipal vindo de atividades agropecuárias, a horticultura nem sempre foi a principal atividade agrícola de Cajuru, como lembra o diretor de agricultura Pedro Mesquita Luiz.

“Nessas áreas havia o predomínio da bovinocultura de leite, que ainda existe com muita força no município. Mas, atualmente, as hortaliças têm uma participação importantíssima”, diz.

A produção de leite entrou em declínio nos anos 1980, frente à expansão do cultivo da cana-de-açúcar nas maiores propriedades do município, onde ela continua sendo cultivada, junto com café e o eucalipto.

Além disso, Luiz explica que a mudança do perfil da zona rural, que ainda representa 98,95% da área total do município, começou a ganhar força a partir da década de 1990 com a criação de políticas públicas voltadas a pequenos produtores e com o aumento da demanda de legumes, verduras e frutas em Ribeirão Preto e região.

Ainda hoje, a capital metropolitana é a principal consumidora dos produtos de Cajuru, que também são fornecidos para aproximadamente 20 municípios.

Quando começou sua horta, há mais de 20 anos, o agricultor Rodrigues foi um dos beneficiários dos incentivos públicos, tendo conseguido crédito junto ao Banco do Povo para iniciar sua produção, que atualmente ocupa uma área de 24 mil metros quadrados, onde são plantados alface, rúcula, chicória, couve, brócolis, coentro, hortelã, rabanete, entre outros.

“Não é fácil ter uma horta. Hoje em dia, quem quiser montar uma horta boa, ainda que pequena, e entrar no mercado para vender, precisa ter pelo menos R$ 100 mil para começar. Para montar uma horta do jeito da minha, nem faço ideia”, avalia.

Além dos investimentos necessários, o assistente agropecuário chefe da Casa da Agricultura aponta que as principais dificuldades que vêm tirando o sono dos produtores de Cajuru são o aumento do preço dos insumos e as adversidades climáticas.

“Soma-se a isso o poder de compra das famílias, que não têm acompanhado a alta dos preços. Daí, quando eles aumentam os valores dos produtos, o consumidor não consegue comprar e ficam os dois em situação ruim. Também não podemos esquecer a pandemia, que durante um longo período impediu as feiras livres, dificultando ainda mais as vendas”, analisa Almeida Junior.

Diante dessa situação, os produtores afirmam que, com a queda das vendas e aumento dos preços, não está sendo possível manter a mesma lucratividade da produção, até porque eles não podem repassar tudo ao consumidor.

Na conta de Marcos Antônio Rodrigues, o aumento nos custos da produção fez com que seus produtos ficassem até 40% mais caros. Contudo, caso ele repasse integralmente seus gastos, os reajustes poderiam chegar a 300%.

Outra dificuldade são as mudanças climáticas que, intensificadas nos últimos anos, vêm causando prejuízos aos pequenos agricultores, ameaçando até tirá-los do mercado. Rodrigues, por exemplo, já enfrentou tantos temporais e secas intensas que estima ter acumulado mais de R$ 500 mil em perdas.

“Em 2020, perdi quase R$ 200 mil por causa de um forte temporal. Na ocasião, eu tinha quase 50 estufas montadas, prontas para a colheita. Mas o vento foi tão forte que deixou apenas sete delas sem nenhum arranhão. Todas as outras estragaram, sendo que maioria foi completamente derrubada. Mas, com fé em Deus, estou me reerguendo novamente.”

O agricultor Francisco Silveira cultiva legumes e couve em quatro hectares em Cajuru, SP — Foto: Arquivo pessoal

Nadando contra a corrente

Para Rodrigues, o momento no qual conseguiu o financiamento para começar sua horta foi um dos melhores para atuar no setor, já que Cajuru ainda não era um polo regional de olericultura. Desde então, a concorrência cresceu muito. “Hoje, deve ter 500 ou mais produtores”, estima.

Na quarta geração de uma família de agricultores, foi pensando na concorrência que Francisco Silveira montou sua horta de quatro hectares apostando principalmente em legumes como mandioca, abobrinha, tomate e vagem, mas também com a produção de couve. Ele explica o motivo.

“Já que os produtores daqui mexem principalmente com hortaliças de ciclo rápido, como alface, almeirão, chicória, rúcula, poucos plantam couve. Então, foi um jeito de agregar uma renda a mais à minha propriedade”, diz.

Com essa estratégia, Silveira vende 20% de sua produção para centros de abastecimento regionais e para feirantes. O restante é vendido direto na horta, às margens da Rodovia Abrão Assed (SP-333).

“Eu vejo minhas escolhas como um mercado mais promissor. Tanto que eu consigo vender toda a minha produção. Mas, ao mesmo tempo, são culturas mais trabalhosas, que dependem de monitoramento intenso, já que são mais suscetíveis a pragas”, explica.

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Fonte:G1