Inadimplência recorde no agronegócio multiplica riscos para proprietários rurais

O crescimento da inadimplência no agronegócio tem acendido um alerta entre proprietários rurais que obtêm renda por meio do arrendamento de terras. Dados da Serasa Experian mostram que o setor encerrou 2025 com R$ 54 bilhões em débitos negativados e índice de inadimplência de 8,2%, o maior das últimas três décadas. Entre os arrendatários, a situação é ainda mais preocupante: a taxa chega a 9,9%, a mais elevada de toda a cadeia agropecuária.

O cenário preocupa porque, diferentemente de outras relações comerciais do setor, os contratos de arrendamento costumam prever apenas um pagamento anual. Dessa forma, quando ocorre o descumprimento da obrigação, o proprietário pode ficar meses sem qualquer entrada de recursos, comprometendo o orçamento familiar e a manutenção da atividade.

Em regiões de forte produção agrícola, o valor anual do arrendamento varia, em geral, entre R$ 1.200 e R$ 3.500 por hectare, podendo ser superior em áreas de maior produtividade. Isso faz com que propriedades de porte médio movimentem centenas de milhares de reais em uma única operação financeira ao longo do ano. “Há proprietários que vivem exclusivamente dessa renda e recebem um único pagamento por ano. Quando esse valor não é honrado, o prejuízo é monstruoso, porque a pessoa passa um ano inteiro sem nenhuma fonte de sustento”, afirma Paulina Caiado, advogada especialista em Direito Civil e Agrário.

Embora fatores como eventos climáticos adversos, aumento dos custos de produção e volatilidade das commodities estejam entre as principais causas da deterioração financeira dos produtores, a especialista ressalta que muitos prejuízos poderiam ser reduzidos com contratos mais bem estruturados. Segundo ela, documentos elaborados de forma inadequada dificultam a cobrança judicial e ampliam as perdas dos proprietários.

“O que realmente transforma um simples atraso em prejuízo irreversível é a ausência de multa prevista em contrato, a redação confusa e a falta de documentação capaz de comprovar o inadimplemento. É exatamente isso que separa um proprietário que consegue reaver o que é seu de outro que perde a disputa mesmo estando com a razão”, explica.

Os dados da Serasa também revelam diferenças significativas entre as regiões do país. No Norte, a inadimplência rural alcança 12,5%, mais que o dobro dos 5,7% registrados na Região Sul. A diferença é atribuída, entre outros fatores, à maior presença de cooperativas e ao uso mais disseminado de mecanismos de seguro agrícola no Sul, que ajudam a reduzir os impactos financeiros das oscilações da atividade.

Na avaliação de Paulina, o avanço da inadimplência reforça a necessidade de os proprietários tratarem a gestão jurídica dos contratos com o mesmo nível de atenção dedicado aos aspectos produtivos e financeiros da atividade rural. “Esse é um assunto profundamente vinculado à economia atual, e a tendência é que continue crescendo. Quem ainda trata o contrato de arrendamento como uma formalidade está exposto a um risco que pode comprometer a renda de um ano inteiro de trabalho.”


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