‘Imagem do Brasil está desgastada, mas piora não precisa ser permanente’, diz Ilan Goldfajn | Economia

0
10


Ex-presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn diz que a imagem do Brasil está desgastada entre os investidores internacionais. Há dúvidas em relação aos rumos das contas públicas e à capacidade de o país acelerar o crescimento. Mais: o descuido com o meio-ambiente e o descontrole da pandemia de coronavírus também tornam a imagem do país nebulosa no exterior.

“Os investidores estrangeiros olham para o Brasil e identificam dois problemas principais. O primeiro é o fiscal. Ou seja, será que o Brasil vai conseguir fechar as contas ao longo do tempo? E o segundo é que eles olham para o crescimento e dizem: ‘Olha, esse país cresce pouco. Eu quero investir em países que crescem mais'”, afirma Ilan, atual presidente do conselho do banco Credit Suisse no Brasil.

Hoje, ele diz que as projeções de crescimento para 2021 estão entre 4% e 5%, mas que o risco de uma terceira onda da pandemia se coloca como um risco para essas estimativas.

“O risco para o segundo semestre é, de novo, a gente não ter conseguido debelar a crise do Covid”, diz. “O mundo já está começando a pensar o pós-Covid, e a gente ainda está lutando aqui com as vacinas.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Retrato de Ilan Goldfajn — Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo/Arquivo

  • Como você avalia o atual quadro econômico do Brasil?

A economia está tendo seu vigor. Cresceu no primeiro trimestre, recuou no segundo, mas uma queda não tão forte, e tudo indica que vai recuperar no segundo semestre. As expectativas de crescimento para o ano já estão entre 4% e 5%. Então, devemos recuperar o ano passado. Qual é o risco disso não acontecer? Principalmente essa terceira onda (da pandemia). Ou seja, a gente voltar a ter restrições, que são absolutamente necessárias para conter o número de casos e de óbitos. E não é que você tenha opção. A opção é vacinar.

Outros países conseguiram debelar a crise do Covid. Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo, já estão saindo. O mundo está começando a pensar o pós-Covid, e a gente ainda está lutando aqui com as vacinas.

  • Ou seja, há um claro descompasso entre o Brasil e o restante do mundo?

As economias avançadas e até outros países conseguiram fechar acordos (de compras de vacinas) mais rapidamente. Eu acho que a nossa gestão da vacinação, ao longo do processo, tem sido muito lenta e isso nos coloca com muitos mais casos, muito mais dificuldade de abrir a economia e, portanto, com um atraso na recuperação da economia.

Todo mundo hoje já sabe que gestão de saúde e a gestão da economia andam juntas. Ficou para trás aquela ideia de que é ou a economia ou a saúde. E está claro que o nosso atraso na saúde prejudica a recuperação e faz com que a retomada, em alguns países, seja muito mais rápida do que no Brasil.

  • Isso prejudica ainda mais a nossa imagem no exterior?

Os investidores estrangeiros olham para o Brasil e identificam dois problemas principais. O primeiro é o fiscal. Ou seja, será que o Brasil vai conseguir fechar as contas ao longo do tempo? E o segundo é que eles olham para o crescimento e dizem: ‘Olha, esse país cresce pouco. Eu quero investir em países que crescem mais’.

E tem também uma questão da imagem ao longo do tempo. Nossa imagem de desmatador, a gente está desmatando a Amazônia, não cuida do verde, que é uma questão preciosa hoje para vários investidores. Nós passamos a imagem de uma gestão da vacinação e da pandemia que nos leva a ser vistos como um país estranho. O Brasil na pandemia e na vacinação é muito diferente do restante do mundo, em termos de debate e discussões. E isso tudo faz com que o investimento acabe fluindo para outros lugares, outros emergentes.

  • A nossa imagem, então, está desgastada?

Sim, está desgastada. Mas isso não precisa ser permanente, tem como mudar. A gente pode fechar o nosso problema fiscal. Nós podemos endereçar questões que nos dificultam o crescimento. Dá para voltar a conversar, falar, dizer qual é a opinião que milhões de brasileiros têm sobre a vacinação, sobre o meio-ambiente. Temos que passar essa imagem e dá para fazer isso relativamente rápido se a gente quiser.

Retrato de Ilan Goldfajn — Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo/Arquivo

  • Em relação às contas públicas, como conciliar ajuste fiscal e aumento de gastos na área social nesse período de pandemia?

Focando. Fazendo escolhas. Nesse caso, escolhas pelos mais necessitados, por aqueles que precisam mais socialmente. A gente não consegue fazer essa escolha, a gente quer gastar em estatais, no funcionalismo, em benefícios muito além, tem várias injustiças em termos de equidades. Então, acho que a forma de lidar com o problema fiscal e a necessidade social é focar nos mais vulneráveis.

Você tem como fazer isso. Tem no Senado uma Lei de Responsabilidade Social, que não tem muito mais gasto do que um Bolsa Família. Só que foca nos mais vulneráveis.

Nós precisamos, como sociedade, saber que os recursos são limitados e que nós temos de escolher no que a gente quer investir e quem a gente quer proteger. Quando a gente não toma essa decisão, ela acaba sendo adotada de última hora, virando uma porção de emendas (no Congresso).

  • O mercado está prevendo uma inflação bem próxima ao topo da meta no fim deste ano. Esse processo inflacionário preocupa?

Nós temos um choque de inflação que tem a ver com as commodities. Ou seja, tem um choque que veio de fora, de fora do núcleo da economia, e outro que veio do descompasso entre oferta e demanda na pandemia. Essa combinação acabou gerando pressão inflacionária, que deve ser temporária.

O país avançou no controle da inflação de forma a absorver o choque. Só que a gente não deveria dar isso como certo. Nós vamos ter uma inflação em 12 meses acima de 8%. O teto é 5,25%. Então, quando chega a 8%, precisa ter um esforço para voltar ao centro da meta, que está lá embaixo, entre 3% e 4%. É lá que a gente tem que chegar.

E aí o esforço de todos tem de ser nessa direção. Então, você me pergunta: está preocupado com isso? Minha resposta é: tem tudo para voltar, mas tem que trabalhar, tem que ancorar, temos que fazer tudo para não correr esse risco este ano.

  • O ciclo de aperto monetário (alta dos juros) deve seguir, então?

Eu acho que a mensagem correta, que é a mensagem que o Banco Central está tentando emitir, é que eles vão fazer o que for necessário para ancorar as expectativas. É importante passar a mensagem de que será feito o que for necessário para evitar a desancoragem da inflação.

  • E qual a expectativa para a economia em 2022?

Vamos voltar para um crescimento de 2%. Ou seja, o nosso crescimento medíocre das últimas décadas. Por que isso acontece? Porque a gente tem milhões de problemas de produtividade e de riscos. A gente não consegue produzir mais, temos uma alta carga tributária, temos a complexidade burocrática, a economia é fechada, há o peso do Estado, há a necessidade de consolidação fiscal.

Além disso, nós podemos ter um ano global mais desafiador, porque a recuperação está acontecendo agora e, em 2022, isso pode gerar inflação de novo, depois de quase duas décadas. Isso pode levar a um aumento de juros, que brecaria a recuperação global e a nossa também.

Nós também estaremos num ano eleitoral, com todas as questões de risco e volatilidade. Ou seja, o nosso ritmo já é lento. Se a gente tiver qualquer vento contrário vindo do mundo ou vindo daqui, das questões mais políticas, esse ritmo de expansão pode ficar ainda mais lento.

  • Quais as chances de o governo conseguir aprovar alguma reforma relevante até o fim do governo Bolsonaro?

Estamos vendo as reformas voltando à pauta do Congresso. A questão é se essas reformas vão gerar tudo o que a gente precisa. Às vezes, entram alguns itens que não são bons para a economia ou os textos não são tão amplos como deveriam. Então, a dúvida que eu tenho, é se as reformas, caso caminhem, se elas vão ser o que a gente gostaria.

Vídeos: Últimas notícias de economia

PIB DO PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2021



Fonte: G1