‘Eu não tenho mais fôlego’, diz dono de bar no Rio após 9 meses de prejuízos e acúmulo de dívidas | Economia

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Fé, esperança e apego ao negócio de uma vida foram os sentimentos que sustentaram o dono de um bar na Zona Sul do Rio ao longo de nove meses de pandemia. Sem lucro, praticamente sem clientes, sem acesso a crédito facilitado e com acúmulo de dívidas, ele estabeleceu prazo até o fim de dezembro para definir se manterá a luta para não fechar as portas. Mas teme pelo pior.

“Esse mês de dezembro é meu último mês. Se não aparecer alguma perspectiva, alguma parceria, se não aparecer alguém que queira juntar comigo para fazer alguma coisa, para somar, infelizmente eu vou jogar a toalha. Não vai ter como. Eu não tenho mais fôlego, eu não tenho mais de onde tirar crédito, não tenho. Infelizmente, não tem como”, disse o empresário Irenildo Queiroz, de 65 anos, mais conhecido como Bigode, apelido que dá nome ao bar.

A pandemia do coronavírus obrigou o Bar do Bigode a ficar fechado por quase quatro meses, período em que teve faturamento zero, mas em que as contas não deixaram de pagar, gerando prejuízos. Só reabriu as portas, em julho, porque contou com a solidariedade de clientes que se solidarizaram com a situação dele, apresentada em reportagem do G1, e lhe doaram cerca de R$ 12 mil.

Após reportagem do G1, clientes do Bar do Bigode se mobilizaram para socorrer financeiramente o empresário — Foto: Reprodução

Desde o início da pandemia, o G1 está acompanhando as histórias de empreendedores que estão tentando sobreviver à crise. Veja aqui o que os mesmos empresários contaram em abril; o que disseram em maio, em julho, em setembro, e os novos depoimentos este mês:

Veja também o que Irenildo Queiroz contou ao G1 nos meses anteriores:

Desde que reabriu as portas em julho, o bar faturou mensalmente apenas cerca de 10% do habitual, insuficiente para cobrir as despesas básicas, entre elas o aluguel de quatro salas em um dos principais centros comerciais do Rio de Janeiro.

A ajuda financeira dada pelos clientes foi a salvação do bar, permitindo quitar as contas em atraso. Mas com o baixíssimo faturamento, sustentar os negócios se mostrava inviável. Uma linha de crédito especial criada pelo governo para socorrer microempresários, o Pronampe, era a luz no fim do túnel para Bigode manter o caixa. Mas ele teve o empréstimo negado pelo banco.

“Eu insisti acreditando que a gente ia ter um pouco mais de aporte do governo, acreditando que as coisas iam melhorar. Mas as minhas economias foram todas. Eu fui pegando empréstimo aqui, empréstimo ali. Eu devo um, eu devo outro. Então, eu não tenho mais de onde tirar dinheiro. E cada dia que passa as coisas vão ficar piores, pelo andar da carruagem que eu vejo por aí”, lamentou o empresário.

Bigode diz que a única ajuda que recebeu do governo foi através do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que lhe permitiu suspender os contratos dos dez funcionários desde o fim de abril. Por meio dele, o empresário paga 30% do salário devido a cada empregado, enquanto o governo completa o pagamento dos outros 70%.

A medida, que inicialmente foi um alívio, agora é motivo de ainda mais preocupação para o empresário. O acordo com o governo federal o obriga a garantir estabilidade a todos pelo menos período no qual o contrato esteve suspenso.

“Como que eu vou conseguir dar estabilidade para os meus funcionários se eu não estou tendo? Como? Eu não sei como. Eu não sei, eu não sei onde vamos parar com isso”, disse.

Com todos os funcionários afastados, Bigode segue abrindo o estabelecimento para servir refeições. A mulher dele assumiu o caixa, um parente, a cozinha, e o empresário se encarrega do atendimento aos poucos clientes.

Antes acostumado com as mesas lotadas de clientes no horário do almoço, Bigode agora amarga espaço vazio — Foto: Daniel Silveira/G1

Antes da pandemia, a clientela do Bar do Bigode era formada, majoritariamente, por funcionários das inúmeras empresas do entorno e pelos estudantes de três universidades vizinhas. Nenhuma delas retomou as atividades presenciais até o começo de dezembro.

O verão, que aumentava o movimento durante as noites, já é dado como perdido pelo empresário, dado o avanço dos casos de Covid-19 no Rio e a incerteza sobre o início da vacinação contra a doença. No curto prazo, ele já não tem esperança alguma de ver o faturamento voltar a subir e um novo empréstimo é algo inviável.

O G1 acompanha o Bar do Bigode desde março. A maior preocupação do dono, desde o início, era preservar os dez empregos que mantinha há anos. Embora preocupado com as incertezas trazidas pela pandemia, ele se mostrava sempre otimista. Mas, na última conversa, ocorrida no dia 30 de novembro, o otimismo já cedia lugar ao desânimo.

“Eu fui insistindo, insistindo, insistindo e acreditando. Eu sempre acreditei. Eu não estou desacreditando totalmente. Eu estou preocupado. Eu queria muito manter a minha empresa, muito. Mas, infelizmente, pelo que eu estou vendo aí, pelas contas que eu venho fazendo, eu não vou ter como manter. Não vou ter mesmo”, lamentou.

Em outubro, o Bar do Bigode completou 15 anos. Não teve festa. E o empresário se diz inconformado com a possibilidade de se desfazer do negócio de tantos anos.

“Quando eu penso que eu tenho que fechar esse estabelecimento onde eu trabalhei demais, eu [lembro que] dou o meu sangue, eu dou a minha vida, eu sempre dei minha vida por esse negócio aqui. Então, eu insisti acreditando que as coisas iam melhorar”, disse emocionado.

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Fonte: G1

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