Estagiário larga emprego na pandemia e diz ter lucrado R$ 700 mil como ‘day trader’; especialistas alertam para riscos | Rio de Janeiro

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‘Bilionário, empreendedor e o investidor mais bem sucedido do mundo. Esse é o Warren Buffett, eu sou só o Dayvison Casal’.

É dessa maneira descontraída — citando um dos homens mais ricos do mundo, tido como referência para investidores — que o carioca Dayvison Casal, de 24 anos, se apresenta em uma de suas redes sociais.

Dados da B3, a bolsa de valores brasileira, indicam que, nos últimos três anos, o número de investidores entre 16 e 25 anos saltou de 18 mil para mais de 420 mil.

Entre 2019 e 2020, foram mais de 2 milhões de novos investidores – 42% deles com idade entre 25 e 34 anos.

Day trade é a atividade de comprar e vender o mesmo ativo financeiro (ações), no mesmo dia e na mesma quantidade.

Especialistas definem como um tipo de investimento de alto risco, onde a maioria das pessoas perde dinheiro (entenda mais sobre os riscos no fim da reportagem).

Dayvison, no entanto, tem se diferenciado da maioria e diz ter multiplicado o capital em meio à pandemia: saiu de R$ 30 mil guardados para mais de R$ 700 mil acumulados, como contou ao G1.

Dayvison morava no bairro chamado KM 32, no limite de Nova Iguaçu, na Baixada, com a Zona Oeste da capital fluminense.

Com o lucro das apostas diárias, hoje aluga um apartamento em frente à praia no Recreio e comprou “um carro bacana”, como definiu o seu Jaguar XE R-Sport, que diz ter pago R$ 170 mil.

O sonho do pai de Dayvison era que o filho fosse militar, mas a carreira no Exército não durou muito — Foto: Arquivo pessoal

Para ele, sair do “velho oeste”, como chama a área onde morava com os pais, era um dos principais objetivos.

“De onde eu vim, é difícil você sair e ir morar em um lugar bacana. Pra você ter ideia, eu só conheço uma menina do KM 32 que passou para uma universidade pública. Ela estuda medicina. Lá é distante de tudo”, contou.

O pai de Dayvison, Cosme Casal, de 57 anos, um ex-feirante que atualmente administra um bar, tinha o sonho de ver o filho oficial das Forças Armadas e formado na faculdade.

Por isso, uma das primeiras experiências profissionais do jovem foi na carreira militar. Em 2015, como recruta do Exército, Dayvison conseguiu seu primeiro salário, algo em torno de R$ 800.

“Eu gastava o dinheiro todo com as passagens. Não sobrava nada”, recorda.

Com o tempo, descobriu que não seria como militar que deixaria o pai orgulhoso e largou a farda.

Desempregado e sem muitas opções, voltou para a faculdade de ciências contábeis, que tinha trancado quando entrou para o Exército.

Foi nessa época que Dayvison começou a estudar o mercado financeiro, passando a pesquisar sobre o tema na internet. Meses depois, conseguiu o primeiro estágio na área. Passou em uma entrevista para trabalhar no escritório da Universidade de Columbia, no Centro do Rio.

“Eu sempre estudei em colégio público, mas teve uma época que meu pai disse que poderia me colocar em um colégio particular. Eu achei melhor fazer um curso de inglês e de informática. A escolha foi ótima, porque com o pouco que eu aprendi no curso consegui me virar bem na entrevista para a Columbia University”, comentou ele.

Com três meses de estágio, Dayvison diz que já mostrava na empresa seus conhecimentos sobre ações, rendas variáveis e ativos.

“Eu conversava muito com os amigos e até com o meu chefe sobre o mercado financeiro. Teve um dia, depois do trabalho, ele fechou tudo e eu operei para ele com day trade. Em dois dias, eu fiz R$ 7 mil. Foi uma loucura. Aquele valor era maior do que o salário do meu chefe. Foi surreal.”

Em uma segunda-feira de engarrafamento na Av. Brasil, o jovem estagiário decidiu largar o estágio e apostar no mercado de ações.

“Eu estava no ônibus. Levava três horas por dia para chegar no trabalho, isso quando não chovia (…) Quando cheguei no trabalho, pedi demissão.”

Os amigos não acreditaram quando Dayvison deixou o emprego durante uma pandemia mundial e vivendo em um país em crise.

“Quando eu larguei o trabalho, tinha uma reserva de R$ 30 mil. Mas esse valor eu perdi nos primeiros passos. Perdi com cursos, perdi investindo no mercado. Chegou um momento que eu tinha R$ 20 negativo no banco”, contou.

12 horas de estudo por dia: ‘Dedicação total’

Quando largou os estudos e o estágio, Dayvison ainda morava com os pais no KM 32. Ao saber que o filho tinha abandonado a faculdade novamente, o pai não acreditou.

“Meu pai me perguntou se eu tinha virado prego. Eu falei que ia me dedicar a estudar mais o mercado financeiro. Ele não sabia direito o que era (…) Com meu pai foram três etapas. Primeiro, me chamava de prego. A segunda, foi achar que eu estava fazendo algo ilegal na internet. E a terceira, ele não sabia explicar o que eu fazia, mas contava orgulhoso que eu era professor de alguma coisa”, contou, aos risos.

Durante a pandemia, o jovem só ficava em casa e estudava cerca de 12 horas por dia.

“Eu não fazia mais nada. Foi dedicação total”, lembrou Dayvison ao falar dos primeiros momentos da pandemia.

Dayvison foi um dos milhões de novos investidores que passaram a ‘operar’ na bolsa de valores brasileira, entre 2019 e 2020 — Foto: Arquivo pessoal

‘Só faz dinheiro quem tem dinheiro’

A virada na vida de Dayvison começou quando ele mais pensou em desistir. Com a conta bancária no vermelho, o investidor convenceu um amigo, que já conhecia suas habilidades como investidor, a apostar nele. Voltou ao mercado com R$ 56.400 para administrar.

“Foi isso que me alavancou. Tiveram muitos momentos que eu achei que essa vida não fosse pra mim. Que eu pensei em desistir. (…) É claro que só faz dinheiro quem tem dinheiro. É impossível negar isso, mas o que vai diferenciar é o conhecimento e o gerenciamento que a pessoa vai seguir. Não pode desistir”, orientou o investidor.

A partir daí, recorda Dayvison, a explosão financeira foi muito rápida: “Eu estava fazendo em um dia o valor de quase um ano de salário que eu tinha. Eu não acreditava. Meu Deus do céu! Nas últimas semanas de 2020, teve dia que eu bati R$ 100 mil, R$ 150 mil”.

Uma das maiores realizações de Dayvison, quando ainda morava com os pais no KM 32, foi poder pagar uma obra na casa da família. Em um dia, o jovem encontrou o pai bastante preocupado com o custo de uma reforma que teria que fazer no telhado.

“Eu não falava muito quanto eu ganhava, mas a mudança para o meu pai foi quando a gente precisou fazer uma obra, porque estava entrando água no telhado. Eu perguntei para ele sobre o orçamento e ele falou que dava uns R$ 3 mil e pouco. Eu disse: ‘Então, pode fazer que eu vou pagar’. Ele não entendeu nada, mas eu sei que ele ficou muito feliz”, contou.

“Esse ano eu pretendo viajar o mundo todo operando e fazendo dinheiro. Minha meta é chegar a fazer R$ 300 mil por semana. Então, quem sabe esse ano eu possa me tornar um dos milionários do Brasil”, planeja Dayvison.

O crescimento de jovens na bolsa de valores é reflexo do aumento geral de novos investidores no mercado. Há uma década, a bolsa não tinha 500 mil investidores. Atualmente, são mais de 3,2 milhões de CPFs cadastrados.

O aumento se deve principalmente à redução da taxa básica de juros no país, dizem especialistas. Em 2010, a Selic estava em 10% ao ano e atualmente está em 2% ao ano.

Com os cortes seguidos na taxa básica de juros, o brasileiro tem encontrado na renda variável uma opção para ter retornos mais atraentes.

Junto dos fatores fiscais, é importante destacar que aprender sobre como investir está cada vez mais acessível. Na internet, há uma série de cursos, vídeos e materiais disponíveis.

No final de 2020, Dayvison (casaco Flamengo) começou a dar aulas sobre o mercado financeiro e atualmente tem alunos de vários estado do Brasil aprendendo a investir com ele — Foto: Arquivo pessoal

Especialistas fazem alertas para quem pretende entrar para o grupo de novos investidores brasileiros.

Segundo André Pássaro, gerente de acompanhamento de mercado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é importante não encarar as operações financeiras online como um jogo. Na opinião dele, o day trade é um tipo de investimento de alto risco, onde a maioria das pessoas perde dinheiro.

“Esse tipo de resultado muito expressivo não é normal, mas pode ocorrer. É possível, tem traders muito bons no mercado, mas é uma pequena minoria. (…) O que a gente costuma perceber são resultados relativamente equitativos, ou seja, ele ganha em um dia e perde no outro. Mas ele costuma ganhar pouco e perder mais do que ganha”, explicou Pássaro.

Outra preocupação para o gerente da CVM é em relação à grande quantidade de cursos online vendendo uma possível fórmula do sucesso.

“Os cursos na internet fazem parecer que é fácil, anunciando que você poderia trabalhar por cinco minutos, de qualquer lugar e ganharia muito dinheiro. Com certeza não é assim. Não há jeito fácil de ganhar dinheiro. Para ter chance de ser bem sucedido, não é uma garantia, mas para ter chance, a pessoa vai ter que estudar muito e verificar muito se tem cabeça para risco e se consegue diagnosticar o mercado bem. Não existe uma fórmula pronta e quem tem uma fórmula para ganhar dinheiro não vai compartilhar com você”, orientou André pássaro.

Em janeiro de 2020, uma pesquisa do LinkedIn apresentou as 10 profissões mais procuradas do momento e a carreira de day trader já aparecia em nono lugar.

O encantamento provocado por histórias de sucesso como a de Dayvison e a falsa sensação de facilidade podem virar grandes frustrações e, principalmente, prejuízos.

De acordo com o estudo ‘É possível viver de day-trade em ações?’, dos professores Fernando Chague e Bruno Giovannetti, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 99,43% dos 98.378 day traders que atuaram no mercado brasileiro entre 2012 e 2018 não mantiveram suas atividades.

Ou seja, nesse período, apenas 554 pessoas fizeram day trades em mais de 300 pregões.

“A média do ‘lucro bruto diário médio’ entre os 554 indivíduos é de R$ 49 negativos. Além disso, apenas 127 indivíduos apresentaram ‘lucro bruto diário médio’ acima de R$ 100. Acima de R$ 300 diários, temos apenas 76 indivíduos”, diz um trecho do estudo publicado pela FGV.

O estudo concluiu que, “mesmo considerando apenas os 127 indivíduos ‘ganhadores’, vemos uma média de ganho baixa frente ao risco”.

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Fonte: G1

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