Digitalização amplia riscos de ataques cibernéticos ao setor eólico brasileiro

A expansão da energia eólica na América Latina, acompanhada pela crescente digitalização dos parques geradores, tem ampliado a exposição do setor a ataques cibernéticos. Sistemas de monitoramento remoto, redes de comunicação e plataformas automatizadas, essenciais para aumentar a eficiência das operações, também criam novas vulnerabilidades. Diante desse cenário, a proteção digital passou a integrar as decisões estratégicas das empresas de energia, com impactos sobre a continuidade da geração, a preservação dos ativos e a estabilidade do fornecimento elétrico.

O alerta faz parte do estudo “Cibersegurança & OT: Resiliência para uma indústria eólica mais digital, conectada e crítica”, elaborado pela fabricante de turbinas Vestas. O levantamento defende que a gestão dos riscos tecnológicos seja incorporada a todas as etapas dos empreendimentos, desde o planejamento e a instalação dos equipamentos até a operação e a manutenção.

“Os parques modernos dependem de sistemas SCADA, conectividade remota, monitoramento centralizado, redes de comunicação e plataformas de suporte operacional. Essas tecnologias são essenciais para operar e otimizar a geração, mas também ampliam a superfície que precisa ser protegida”, alertou Vinicius Ribeiro Niedzwiecki, responsável por soluções para plantas de energia da Vestas na América Latina.

À medida que a energia eólica ganha participação nas matrizes elétricas da América Latina, uma interrupção nesses ambientes pode afetar a continuidade da geração, comprometer o valor dos ativos e, dependendo de seu alcance, gerar desafios para a estabilidade dos sistemas elétricos. Por isso, a Vestas considera que a resiliência cibernética deve estar no radar da alta liderança e fazer parte das decisões sobre investimentos, operação e gestão de riscos.

A preocupação está relacionada principalmente à segurança dos sistemas de tecnologia operacional, conhecidos pela sigla OT, responsáveis pelo controle e funcionamento dos equipamentos industriais. Diferentemente dos ambientes tradicionais de tecnologia da informação, essas estruturas exigem medidas de proteção que considerem a necessidade de manter a produção de energia em funcionamento.

“A próxima etapa da digitalização eólica não será definida apenas pelo quanto podemos monitorar ou automatizar, mas pela capacidade de fazer isso de forma segura e resiliente. A cibersegurança deve ser uma condição de design e uma disciplina permanente da operação. As empresas que a tratarem apenas como um requisito de IT estarão reagindo tarde”, afirmou Niedzwiecki.

Dados de diferentes levantamentos internacionais reforçam a preocupação com a segurança digital da infraestrutura energética. Segundo o relatório EnergyCyberPriority 2025, realizado com 375 profissionais do setor, 65% dos entrevistados afirmaram que a liderança de suas organizações considera a cibersegurança o principal risco atual para os negócios.

Uma análise conduzida pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, em parceria com o Idaho National Laboratory, também identificou incidentes envolvendo organizações ou instalações relacionadas à geração eólica em pelo menos sete países ao longo de uma década.

Os prejuízos potenciais são expressivos. O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, estimou em US$ 4,44 milhões o custo médio global de uma violação de dados. No setor energético, esse valor chegou a aproximadamente US$ 4,83 milhões.

Outro indicador é o avanço dos ataques de ransomware, modalidade de crime digital que utiliza programas maliciosos para bloquear sistemas ou sequestrar informações, geralmente mediante exigência de pagamento. O Energy & Utilities Risk Radar Report 2025 registrou crescimento anual de 80% dessas ocorrências contra empresas de energia e serviços públicos.

Na indústria em geral, o Dragos 2025 OT/ICS Cybersecurity Report identificou aumento superior a 87% na atividade de ransomware. A edição de 2026 apontou nova expansão, de 64%, durante o ano anterior.

Embora os estudos utilizem metodologias e bases distintas, os resultados indicam uma tendência de crescimento das ameaças digitais. Para a Vestas, o desafio das empresas não se limita à aquisição de ferramentas de proteção, mas envolve a identificação de ativos críticos, o controle de acessos, a detecção de atividades suspeitas e a capacidade de restabelecer as operações após eventuais incidentes.

“O setor já superou a etapa de discutir se OT deve ser protegida. A questão agora é a rapidez com que as organizações conseguem transformar visibilidade, governança de acessos, gestão de vulnerabilidades, monitoramento e resposta a incidentes em uma capacidade operacional integrada. Sem essa conexão, uma empresa pode ter controles e, ainda assim, não estar preparada para tomar decisões durante um evento real”, garantiu Eduardo Javier Zagal, especialista em segurança cibernética da Vestas para a América Latina.

O estudo estabelece cinco prioridades para fortalecer a segurança dos parques eólicos. A primeira é ampliar a visibilidade sobre os equipamentos e sistemas conectados às redes operacionais, permitindo identificar dependências e possíveis pontos de vulnerabilidade.

Outra recomendação envolve o controle de identidades e permissões de acesso, especialmente nas conexões remotas e nas atividades realizadas por fornecedores e prestadores de serviços. A proposta é estabelecer responsabilidades definidas, mecanismos de rastreamento e revisões periódicas das autorizações.

A terceira frente consiste em adaptar a gestão de vulnerabilidades às características dos ambientes industriais. Isso significa avaliar a criticidade de cada sistema e os possíveis efeitos das intervenções sobre a geração, em vez de simplesmente reproduzir procedimentos utilizados em redes corporativas convencionais.

O monitoramento contínuo e a preparação para responder a incidentes constituem a quarta prioridade. Nesse caso, a recomendação é desenvolver protocolos previamente testados para identificar ameaças e reduzir o tempo de reação, sem provocar interrupções adicionais.

Por fim, a fabricante defende que a segurança digital acompanhe todo o ciclo de vida dos empreendimentos, abrangendo projeto, construção, instalação, manutenção, atualizações tecnológicas e relacionamento com fornecedores.

“A resiliência não é adquirida como uma solução pontual. Ela é construída com decisões consistentes durante toda a vida do parque. Isso exige conectar a arquitetura tecnológica à realidade da operação, priorizar de acordo com o impacto potencial sobre a geração e revisar continuamente se os controles continuam respondendo a um ambiente em transformação”, destacou Niedzwiecki.

Avanço regulatório

A preocupação com ataques digitais também tem provocado mudanças nas exigências regulatórias para empresas que operam infraestruturas consideradas essenciais. Na União Europeia, a diretiva NIS2 ampliou as obrigações relacionadas à gestão de riscos, comunicação de incidentes, segurança da cadeia de fornecedores e responsabilidade das organizações.

Nos Estados Unidos, a proteção das instalações energéticas também integra as políticas de segurança de infraestrutura crítica. Na América Latina, entretanto, a evolução das normas ocorre em velocidades diferentes entre os países.

O Chile aparece entre os mercados mais avançados nesse processo. O país conta com um padrão específico de cibersegurança para o setor elétrico, estabelecido pelo Coordinador Eléctrico Nacional (CEN), além da Lei Marco de Cibersegurança, de número 21.663, que instituiu um marco regulatório nacional para o tema.

Na avaliação da Vestas, o cumprimento dessas exigências representa apenas uma etapa da proteção dos empreendimentos. A capacidade de antecipar ameaças e manter decisões operacionais seguras durante uma ocorrência também precisa fazer parte da governança corporativa.

“Para proprietários de ativos e operadores, a conformidade regulatória estabelece um padrão mínimo comum, mas não substitui uma estratégia baseada em risco. Na energia eólica, a maturidade é demonstrada quando a organização consegue antecipar cenários, atribuir responsabilidades e manter decisões operacionais seguras mesmo sob pressão. A tendência será de maior responsabilidade da alta liderança e de uma integração mais profunda entre as equipes de negócio, OT, IT e fornecedores”, disse Zagal.

Esse movimento também tende a modificar a relação entre operadores de parques eólicos e fornecedores de tecnologia. Segundo o especialista, as empresas passarão a exigir soluções capazes de integrar prevenção, monitoramento e resposta a incidentes, considerando as particularidades dos equipamentos utilizados na geração de energia.

“Já não é suficiente oferecer ferramentas ou controles isolados. Proprietários e operadores precisam de parceiros estratégicos que conheçam a tecnologia eólica, compreendam as interdependências da operação e integrem gestão de acessos, gestão de vulnerabilidades, monitoramento, resposta a incidentes e governança em uma estratégia de resiliência de longo prazo. Em resposta a essa necessidade, a Vestas desenvolveu uma abordagem integrada de gestão da cibersegurança que conecta essas capacidades à tecnologia, ao ciclo de vida e à realidade operacional de cada parque”, afirmou Zagal.





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