De onde vem o que eu como (e uso): algodão é o 'boi vegetal' que vira desde óleo de cozinha até dinheiro

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Assim como o animal, quase tudo desta cultura pode ser aproveitado e se transforma em roupas, alimentos, combustíveis e até faz parte das cédulas de real. Lavoura de algodão na Bahia, um dos principais estados produtores do Brasil
Ernesto Rodrigues/Agência Estado

Não à toa o algodão é conhecido como “boi vegetal”. É que, assim como no animal, tudo nele se aproveita… E vira roupa, máscaras de proteção ao coronavírus, óleo de cozinha, combustível e também faz parte das notas de real.
O algodão tem papel importante na economia do Brasil, gerando emprego para cerca de 1,2 milhão de pessoas e tendo movimentado mais de US$ 74 bilhões em 2019, segundo a associação dos produtores (Abrapa).
Hoje, o Brasil é o 4º maior produtor mundial. Mato Grosso e Bahia são os principais pólos do país. A safra cresce há 4 temporadas seguidas, batendo recorde atrás de recorde, de acordo com o Ministério da Agricultura.
E uma roupa “made in China” pode ser mais brasileira do que se imagina. O Brasil é o 2º maior exportador de algodão no mundo. As vendas renderam quase US$ 3 bilhões entre o 2º semestre de 2019 até agora e boa parte delas teve como destino o país asiático.
Agregar mais valor ao produto nacional é um desafio. É que, quando apenas a matéria-prima é exportada, o país perde a chance de ganhar mais com a venda de tecidos e roupas.
Outro ponto é a sustentabilidade do plantio, já que o setor tem a fama de ser um dos que mais utilizam agrotóxicos.Os próprios agricultores se mobilizam para tentar tornar a atividade um exemplo e alegam que fibras sintéticas, como o poliéster, podem ser mais prejudiciais ao meio ambiente que o algodão (leia mais abaixo).
Por que o algodão é o ‘boi vegetal’?
G1
Já usou óleo de algodão?
A pluma, parte mais conhecida do algodão, é carro-chefe da atividade e também é o que mais dá dinheiro para o produtor. Dela é feita a fibra utilizada pelas indústrias de tecidos.
Mas o caroço, que surge da segregação da planta, movimenta também uma grande economia, tornando possível “comer” o algodão.
Algodão é uma cultura muito sensível e exige cuidados
Heckel Júnior/Divulgação
Após ser processado e refinado, ele se torna um óleo comestível, que é o segundo principal produto da atividade, somente atrás da pluma.
O óleo de algodão é o 6º mais consumido no mundo e tem rendimento maior que o óleo de soja, por exemplo. Ele é fonte de ômegas 3 e 6 e vitamina E, substâncias importantes para o funcionamento do organismo.
“Isso (benefícios à saúde) foi descoberto há muito tempo, na década de 1930. Descobriram que era um óleo que tinha poucos ácidos que faziam mal ao organismo”, explica Jorge Mancini Filho, professor sênior do Departamento de Alimentos da Universidade de São Paulo (USP).
“Além disso, é um óleo saudável, possui ácidos essenciais para o organismo humano, ácidos que só podem ser obtidos pela alimentação, já que nosso organismo não tem condições de sintetizá-los.”
Mancini Filho explica que o óleo de algodão e outros óleos vegetais, como de canola, milho, soja e amendoim, ajudam no metabolismo tanto quanto o de coco, que virou moda em dietas pelo mundo.
“O que altera a característica (saudável) e não torna o óleo interessante do aspecto alimentar é o excesso de reaproveitamento, o superaquecimento dele… é só não exagerar”, afirma.
O professor recomenda a utilização do óleo de algodão em, no máximo, 3 frituras, ou em refogados e, até mesmo, em saladas, caso não seja possível utilizar o azeite de oliva.
Óleo de algodão pode ser usado na preparação de alimentos, mas também pode ser usado na salada
Unplash/Divulgação
Outra presença do algodão no prato está na carne bovina. O caroço in natura, ou seja, sem processamento, é usado na alimentação do gado. A Abrapa estima que 40% do que é produzido no país é destinado para a pecuária.
Parceria desde o Império
“A indústria têxtil é gêmea siamesa do algodão, são mais de três séculos de história no Brasil. Algumas indústrias tiveram o alvará assinado por Dom Pedro, antes mesmo da República”, afirma Fernando Pimentel, presidente Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
“Na ocasião, as principais matérias-primas eram o algodão junto com o linho”, diz.
Porém, antes dessa parceria avançar nos tempos do Império, a coroa portuguesa chegou a limitar a produção de tecidos no país a roupas para escravos e sacos. A medida, que era vista como forma de agradar a Inglaterra, durou de 1775 até 1808, quando a Família Real desembarcou no Brasil.
Hoje, metade da fibra usada pela indústria de tecidos do país vem do algodão, são cerca de 750 mil toneladas por ano, de acordo com a Abit. Os principais usos são para confecção de calças jeans e roupas de cama e banho.
Algodão está presente nas calças jeans
GloboNews
A indústria de tecidos no Brasil movimenta cerca de R$ 175 bilhões por ano, tem mais de 30 mil empresas pelo país com 1,5 milhão de empregos diretos.
No mundo, são processadas mais de 100 milhões de toneladas de fibras, pelo menos 25% disso é algodão, ficando atrás apenas do poliéster, que é um subproduto do petróleo.
Desafio de ser sustentável
Um desafio do setor do algodão é a sustentabilidade. A atividade tem a fama de ser uma das que mais utilizam agrotóxicos em números proporcionais.
Um estudo de 2017, feito por pesquisadores de saúde coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mostrou que, em 2015, foram aplicados 29,96 milhões de litros de pesticidas nas lavouras de algodão do país, ficando na 4º posição, atrás da soja, do milho e da cana-de-açúcar, atividades com grandes áreas de produção.
Quando dividido o número de litros pela área plantada, o algodão é o 2º colocado, com 28,6 litros por hectare. O líder neste quesito é o fumo, com 60 litros por hectare.
Lavoura de Algodão em Vilhena, Rondônia
Eliete Marques/G1
Também em 2017, uma pesquisa internacional feita pela Rede de Ação contra Pesticidas (PAN, na sigla em inglês) analisou o uso de agrotóxicos na produção de algodão pelo mundo e apontou que, desde a década de 1980, os agricultores vêm utilizando menos defensivos.
Mesmo assim, o número ainda é considerado alto. A preocupação é, principalmente, com os trabalhadores da atividade.
Um dos motivos para o excesso de uso é que existem variedades transgênicas de algodão, a exemplo do que ocorre na soja, o que facilita a aplicação do veneno. A planta se torna resistente ao glifosato, um pesticida que mata plantas daninhas e é o agrotóxico mais vendido no mundo.
O presidente da Abrapa, Milton Garbugio, explica que a produção de algodão passou por um momento delicado na década de 1990, quando o ataque do bicudo do algodoeiro, um inseto, dizimou lavouras do país.
A partir deste momento, a atividade exigiu mais investimentos no controle de pragas e especialmente no uso da tecnologia (veja no vídeo abaixo).
“É uma atividade delicada, que exige muitos investimentos e tratos culturais. Havia muita dificuldade no plantio e colheita do algodão, e hoje ela é uma cultura toda mecanizada. O produtor precisa ter estrutura”, diz Garbugio.
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Para mostrar compromisso com a sustentabilidade, os produtores criaram em 2013 o programa Algodão Brasileiro (ABR), que é uma certificação que segue padrões internacionais de marcas como Nike, Adidas, Ralph Lauren e Levi’s.
Segundo a Abrapa, são 178 requisitos para garantir a certificação, divididos em critérios como: respeito à legislação do trabalho, saúde dos funcionários e boas práticas agrícolas e de preservação do meio ambiente.
Fardos de algodão, que é modo como o produto é armazenado após a colheita
Alysson Maruyama/TV Morena
Ainda de acordo com a associação, atualmente, 75% da produção nacional é certificada pelo programa ABR, e 100% dela é rastreável, ou seja, é possível saber onde e quando o algodão foi produzido.
Valor agregado
A produção de algodão no Brasil vem crescendo nas últimas 4 safras, batendo recorde atrás de recorde. Os altos valores pagos no mercado internacional do produto fez as exportações aumentarem e estimulou os agricultores a plantarem mais.
Os principais compradores do algodão brasileiro são China, Vietnã, Bangladesh, Paquistão, Indonésia e Turquia. No começo da pandemia, algumas vendas chegaram a ser canceladas (veja no vídeo abaixo), mas isso não está preocupando o setor.
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Mas é preciso incrementar a exportação de produtos feitos a partir do algodão e que têm maior valor agregado.
“A cada US$ 1 bilhão de exportação de valor agregado, você consegue gerar o preservar até 80 mil postos de trabalho na indústria”, diz Fernando Pimentel, da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
O dirigente aponta que impostos e burocracias no Brasil atrapalham o desenvolvimento desse setor.
“Aumentar a transformação do algodão (em artigos) passa por trabalhar uma agenda de competitividade, e isso é muito importante para a indústria. O Brasil tem potencial para ser exportador da commodity (produto sem tratamento industrial) e de manufaturados.”
Os chineses, líderes nas compras, adquirem a fibra e transformam em itens de vestuário e vendem para o resto do mundo, inclusive o Brasil. “O que não faz a indústria (têxtil) avançar é a concorrência chinesa, o custo Brasil pesa muito”, afirma Milton Garbugio, presidente da Abrapa.
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Fonte: G1