Com aumento de eventos-teste, produtores sonham com a retomada pós-pandemia | Economia

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O setor de eventos foi um dos mais prejudicados pela pandemia do coronavírus. Pudera: evitar a doença exige comportamento absolutamente contrário ao costumeiro de festas, shows e comemorações.

A Associação Brasileira dos Produtores de Eventos (Abrape) estima que 97% do setor foi paralisado, com 450 mil empregos perdidos entre diretos e indiretos. Pelas contas da entidade, as empresas deixaram de faturar R$ 90 bilhões em 2020.

O efeito previsto para 2021 não foi calculado, mas deve ser ainda maior já que houve atividade normal nos três primeiros meses do ano passado.

Outra associação de eventos, a Abrafesta, indica que 60% das empresas do setor pararam completamente e 32% mudaram o modelo do negócio. Mas, 16 meses adentro da pandemia, as entidades começam a planejar uma rota de saída.

O governo de São Paulo anunciou na quarta-feira (7) que vai ampliar de 10 para 30 o número de “eventos-teste” neste segundo semestre. Trata-se de uma demanda antiga das entidades do setor, pois ali são instaurados protocolos sanitários e monitoramento intenso dos frequentadores para entender se é possível (e como) realizar grandes eventos.

Há outros estados com testes programados, como Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina. Mas, na lista paulista, há gigantes como o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, a Campus Party, a CCXP e a Oktoberfest, além de quatro shows no Allianz Parque. Os laboratórios começarão em 17 de julho e seguirão até o final do ano.

São Paulo vai realizar eventos-teste a partir de 17 de julho
São Paulo vai realizar eventos-teste a partir de 17 de julho

São Paulo vai realizar eventos-teste a partir de 17 de julho

“Vemos com bons olhos os eventos-testes. São essenciais para demonstrar segurança e reforçar a credibilidade junto à sociedade, ao setor público e aos consumidores”, afirma Doreni Caramori Jr., presidente da Abrape.

Uma sondagem da Abrape em parceria com a Ambev monitora desde julho de 2020 a disposição do brasileiro em frequentar eventos. Apesar de 79% dizerem estar muito preocupados com a situação na última pesquisa, 8 a cada 10 entrevistados disse sentir muita falta de festas, shows e convenções.

Além do uso obrigatório de máscaras (54%), a vacinação é determinante para diminuir o desconforto de frequentá-los. Cerca de 37% disseram que ficariam mais confiantes se a entrada fosse permitida apenas para frequentadores vacinados ou testados.

Acontece que o Brasil ainda segue distante de um patamar confortável para a liberação de eventos sob a ótica dos especialistas em saúde.

Para o médico infectologista Renato Kfouri, o aspecto fundamental para uma flexibilização é que a circulação do vírus seja reduzida. Como eventos demandam tempo de organização, é importante criar protocolos para que, conforme as curvas epidemiológicas permitam, sejam aplicados corretamente.

“Tivemos surpresas com a pandemia, como uma segunda onda muito pior do que a primeira, então não há certeza que não teremos dias piores à frente. Precisamos, por exemplo, ficar atentos a variantes que evitem a imunidade das vacinas”, diz Kfouri.

A principal preocupação, no momento, é a chegada da variante delta ao Brasil. Ela foi identificada pela primeira vez no país há cerca de um mês e provocou duas mortes. Nesta semana, ela foi encontrada em um paciente da cidade de São Paulo, que não viajou.

Mesmo em países com grau avançado de vacinação, a delta causou aumento considerável de casos. A única forma de conter seu espalhamento é restringindo circulação, o que preocupa agentes econômicos aqui e no exterior.

“Saber se teremos controle da pandemia daqui 6 meses ou 1 ano é um exercício de futurologia. Claro que depende, sim, do avanço das vacinas, mas não é o único fator”, afirma o infectologista.

“Há o distanciamento, uso de máscaras, variante em circulação… É o controle da pandemia que determina o grau de flexibilização.”

Público participa de show-teste em Paris com apresentação da banda Indochine na AccorHotels Arena. Uso de máscaras era obrigatório. — Foto: STEPHANE DE SAKUTIN / AFP

Mesmo deixando um possível repique do coronavírus de lado, o retorno dos eventos não basta para recompor o caixa e dar vida nova às empresas. Empresários do setor consultados pelo G1 dizem que há três problemas sérios na cadeia:

  • Alto endividamento das empresas produtoras de evento;
  • Migração de mão de obra e da cadeia de suprimentos;
  • Necessidade de uma “renovação das receitas”.

No ano passado, o governo chegou a dispensar as empresas de turismo, cultura e estabelecimentos comerciais de fazerem o reembolso imediato de serviços cancelados por meio de uma medida provisória. Mas o crédito para recompor o capital de giro foi limitado e teve dificuldade de chegar à ponta.

Já neste ano – 12 meses depois do primeiro impacto da pandemia – o Congresso Nacional aprovou em abril a criação do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), que dá às empresas, entre outros pontos, a possibilidade de renegociação de dívidas (tributárias ou não) com descontos de até 70% e prazo de até 145 meses para quitação.

Além disso, apenas na última rodada do Pronampe, programa de crédito a juros mais baixos e com garantia dada pelo governo aos bancos, foi destinado cerca de R$ 1 bilhão especialmente para empresas de eventos, inseridas no Perse.

No meio tempo, houve duas alternativas: diversificar a receita ou abandonar o setor.

“Logo no início da pandemia, usamos o espaço para um festival de música eletrônica transmitido pela internet. Isso abriu um novo negócio para a empresa e foi o que nos segurou de portas abertas”, conta Luciano Martins, sócio da Casa Petra, casa de eventos em São Paulo.

O empresário conta que as lives apenas seguram o caixa da casa, sem lucros. Mesmo assim com a alternativa de faturamento, a empresa reduziu sua equipe em 20% comparado ao início de 2020.

Houve uma grande perda também de colaboradores eventuais, como garçons, DJs e bartenders, que precisaram procurar outros empregos durante a pandemia e, possivelmente, não retornarão tão cedo.

“Esses profissionais são uma mão de obra muito qualificada que se perdeu. Não só será necessário recompor essas vagas, mas treiná-los do início para um bom atendimento”, diz o empresário.

Garçom limpa mesa de bistrô em Paris, na França, em 16 de outubro de 2020. Novas restrições forçaram restaurantes, cinemas e teatros a fechar na capital francesa devido a um toque de recolher para frear o avanço da segunda onda do novo coronavírus. — Foto: Michel Euler/AP

O presidente da Abrafesta, Ricardo Dias, comenta que além da fuga de profissionais, muitos fornecedores tiveram o mesmo destino. São floricultores, decoradores, docerias e outros tantos que desistiram de prestar o serviço.

“Durante a pandemia, os organizadores precisaram vender festas futuras. Agora, eu pergunto, como é que eles vão entregar essas festas? Sem fornecedor, quem orçou flor a R$ 100, vai ter que comprar a R$ 200”, afirma Dias.

A “venda de festas futuras” é outro efeito nefasto na cadeia. De grandes festivais de música – como o Lollapalooza e o Rock in Rio – aos produtores de casamento, há o empurrão de agenda sem novas entradas financeiras.

O que há em comum entre todas elas é que a realização do evento só servirá de reposição das perdas e seria preciso abrir novas agendas para ganho extra.

O Lollapalooza, por exemplo, acontecia anualmente em São Paulo. No curso da pandemia, foi remarcado três vezes. A previsão é de que a edição que deveria acontecer em 2020 aconteça em março de 2022.

Nesse meio tempo, a Time For Fun (T4F), organizadora da versão brasileira do festival e líder no setor de eventos no Brasil, perdeu praticamente toda a receita líquida (92% comparando o 1º trimestre de 2020 e 2021). O G1 procurou a T4F para saber quais foram as ações de contenção de danos e a expectativa de realizá-lo no ano que vem, mas a empresa não quis comentar.

O Rock in Rio, que acontece a cada dois anos, teve apenas uma edição que ocorreria neste ano cancelada. O evento foi empurrado para 2022. A empresa não respondeu ao pedido de entrevista.

Público chega ao autódromo de Interlagos para o primeiro dia de Lollapalooza 2019; festival foi adiado em 2020 e 2021. — Foto: Fabio Tito/G1

Enquanto se desenrolam os primeiros testes e diante do cenário de incerteza, há quem jogue com a esperança para realizar celebrações em breve. Pedro Marcondes de Carvalho e sua noiva, Julia Araujo, planejam seu casamento em Recife, para janeiro de 2022.

A data foi escolhida no início deste ano, quando a vacinação contra a Covid-19 dava os primeiros passos. O casal tirava por base que, um ano depois e com doses chegando, seria possível fazer a festa com segurança e com os convidados imunizados.

“Combinamos de rever as decisões a cada dois meses para decidir se a data seria mantida ou adiada, com base nas vacinas e nas curvas de contágio. De janeiro até agora, foram muitos sentimentos”, diz Carvalho.

Pedro e Julia planejam a festa de casamento para janeiro de 2022, contando que a pandemia terá sido controlada. — Foto: Arquivo pessoal

O casal chegou a fazer cálculos de média de vacinas aplicadas até a data do casamento para saber se seria possível manter o evento no mês de janeiro. Como a celebração será na praia, pretendiam se esquivar dos meses chuvosos e do inverno. Em caso de mudança, seria necessário empurrar a data para o ano seguinte.

“No fim de maio, com alta nas curvas, estávamos bem frustrados e pensamos em adiar. Mas, no último mês, a vacinação deu uma boa acelerada. O fim de julho será decisivo para mandarmos os convites”, afirma ele.

O G1 perguntou ao infectologista Renato Kfouri se é possível garantir que o casamento em janeiro poderá ser realizado.

“Tudo aponta para um bom número de vacinados e controle da pandemia. Ele pode e deve planejar o casamento, mas sempre há um risco. Se será feito de máscaras, com menos pessoas, ainda é cedo para dizer”, diz o infectologista.



Fonte:G1