Após Giant Steps, fundadores apostam em Inteligência Artificial para consultorias

Após Giant Steps, fundadores apostam em Inteligência Artificial para consultorias

Depois de vender a Giant Steps para a XP Investimentos, os ex-sócios da gestora decidiram voltar a empreender no mercado financeiro mirando um gargalo que cresce junto com as consultorias de investimentos: o peso da operação necessária para atender uma carteira cada vez maior de clientes. A nova aposta é a Revert, plataforma que utiliza agentes de inteligência artificial para assumir tarefas de backoffice e já supera R$ 6 bilhões em patrimônio atendido.

A empresa ganhou escala rapidamente. Em cerca de 100 dias, saiu de sete consultorias contratantes, em junho, para 32 operações ativas em 14 de setembro. Outras 22 estavam em processo de contratação. Cada operação corresponde a um consultor ou empresa de consultoria que transfere à plataforma parte de suas rotinas operacionais.

A tese por trás do negócio parte de uma equação comum ao setor. Quanto mais clientes e patrimônio uma consultoria conquista, maior tende a ser a estrutura necessária para consolidar posições, conferir movimentações, atualizar carteiras, produzir relatórios e administrar informações espalhadas por diferentes instituições financeiras. A Revert pretende quebrar essa relação entre crescimento da receita e expansão do backoffice.

“O próximo salto da consultoria independente não depende apenas de conquistar mais patrimônio, mas de conseguir administrar esse crescimento sem reproduzir, na mesma proporção, a estrutura operacional. Quando cada novo cliente exige mais processos, controles e pessoas, a escala encontra rapidamente um limite. Nossa tese é usar tecnologia para romper essa relação e permitir que uma consultoria cresça com uma estrutura mais eficiente, preservando o profissional nas decisões e no relacionamento em que ele realmente gera valor”, afirmou Rodrigo Terni, cofundador da Revert.

O problema se torna mais relevante à medida que a consultoria independente ganha espaço. No primeiro semestre de 2026, o número de consultores de valores mobiliários registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) cresceu 11,5% em relação ao fim de 2025. A indústria regulada reúne quase 93 mil participantes, enquanto o mercado supervisionado pela autarquia foi estimado em R$ 52,33 trilhões. A indústria de fundos, por sua vez, alcançou R$ 11,83 trilhões, avanço de 14,3% sobre dezembro.

Da gestão à IA

A tecnologia que deu origem à Revert não foi inicialmente criada para atender consultorias. O sistema começou a ser desenvolvido para organizar a operação de um family office cujo patrimônio estava distribuído entre diferentes bancos, corretoras, países, moedas e classes de ativos.

A experiência expôs um problema que se repete nas consultorias. Um único investidor pode ter recursos pulverizados entre diversas instituições, obrigando o profissional a reunir dados recebidos em formatos distintos, conciliar informações, acompanhar movimentações e manter as posições atualizadas. Quando a carteira aumenta, essas tarefas passam a exigir uma estrutura operacional cada vez maior.

A solução evoluiu, então, para uma plataforma capaz de executar consolidação de posições, conciliação de dados, acompanhamento de carteiras, CRM, suporte a aplicações e resgates, faturamento e elaboração de relatórios.

A diferença em relação a softwares tradicionais de gestão está no modelo proposto pela empresa. Em vez de fornecer apenas sistemas para que o próprio consultor realize as tarefas, a Revert utiliza agentes de inteligência artificial para executar parte das rotinas. Os sistemas trabalham sobre informações previamente tratadas e conciliadas, enquanto processos considerados críticos permanecem submetidos à supervisão humana.

Escala operacional

A intenção é permitir que o crescimento da carteira não exija a contratação de profissionais de backoffice na mesma proporção. Com parte das tarefas repetitivas automatizada, a empresa aposta que os consultores poderão concentrar mais tempo no relacionamento com clientes, acompanhamento patrimonial e prospecção.

O cenário econômico também aumenta a complexidade desse trabalho. Mesmo após o corte promovido pelo Banco Central em setembro, a Selic permanece em 13,75% ao ano, enquanto as expectativas de inflação para 2026 e 2027 estavam próximas de 5% e 4,2%, respectivamente. Juros elevados e a multiplicação de produtos financeiros ampliam o volume de informações e decisões envolvidas no acompanhamento dos investimentos.

É nesse contexto que a Revert aposta no uso da inteligência artificial principalmente nos bastidores, preservando a atuação humana no contato e nas decisões relacionadas ao patrimônio do cliente.

“À medida que a consultoria cresce, o desafio deixa de ser apenas conquistar clientes e passa a ser sustentar esse crescimento sem multiplicar custos e complexidade na mesma velocidade. É aí que a inteligência artificial pode mudar a equação. Ao assumir tarefas operacionais e repetitivas, a tecnologia permite que o consultor aumente sua capacidade de atendimento sem transformar cada novo cliente em uma nova camada de estrutura. O valor está justamente em criar escala sem perder qualidade, proximidade e capacidade de decisão”, disse Terni.




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