Agtechs: Entenda onde e como novas startups mobilizam as inovações no campo no Brasil | Estação Agro

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Criado em meio a plantações de café da família, o analista de sistemas Raphael Ivan notou que era comum produtores e agrônomos sentirem dificuldades em gerenciar recursos como água, mão de obra e insumos na lavoura. O problema virou uma oportunidade de negócio de base tecnológica, uma aplicação que organiza todas as atividades desenvolvidas no campo.

“Hoje somos um ecossistema que contempla todo o processo produtivo de uma fazenda. Permitimos que o produtor organize as informações, desde o preparo do solo, até a pós-colheita, resultando em análises mais precisas e que geram inteligência para tomadas de decisão mais eficientes”, explica o CEO da EasyFarm em Ribeirão Preto (SP).

A iniciativa no interior de São Paulo mobiliza uma das 1.574 startups que consolidam o mercado brasileiro de Agtechs, assim chamadas as empresas de tecnologia voltadas ao agronegócio.

Raphael Ivan, de Ribeirão Preto, criou plataforma que ajuda produtores a fazer gestão das lavouras — Foto: Raphael Ivan

Um setor que ainda tem predominância nos estados do Sul e do Sudeste (confirma o mapeamento por região e estado), mas que aos poucos se espalha pelo país e ganhou quase uma nova aplicação por dia durante a pandemia, com 449 novas empresas em 15 meses, segundo dados do Radar Agtech.

O levantamento, feito com a Embrapa e a consultoria Homo Ludens, traz um panorama das startups entre 2020 e o primeiro trimestre de 2021.

“O Brasil tem hoje o movimento mais robusto e descentralizado de Agtechs do planeta. Basta perceber que, durante a pandemia, houve a criação de praticamente uma startup do agro por dia”, avalia Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, gestora de investimentos responsável pelo mapeamento Radar Agtech.

Agtechs brasileiras por região

Fonte: Radar Agtech

O aumento do número de Agtechs foi sentido em todas regiões do Brasil, mas Sudeste e Sul mantêm a maior concentração dessas empresas: são 983 startups no Sudeste e 397 no Sul, que totalizam 1.380, quase 90% do total nacional. Na sequência, aparecem Centro-Oeste, com 94 startups (6%), Nordeste com 72 (4,6%) e Norte com 28 (1,8%).

Comparando o número de novas empresas abertas, o Sul aumentou sua representação sobre o total de Agtechs do país com relação ao relatório de 2019, passando de 23,2% para 25,2%, enquanto o Sudeste retraiu de 65,7% para 62,5%.

Esse movimento foi puxado pelo Paraná, com 151 startups, 49 a mais que no período anterior. Junto a ele, Rio Grande do Sul (com 124) e Santa Catarina (122) também aparecem entre os cinco estados com mais Agtechs do Brasil, ocupando a 2ª, 4ª e 5ª posições.

Com grande vantagem, o 1º lugar é ocupado por São Paulo, que soma 757 empresas do setor, representando 48,1% do total nacional. Já no 3º lugar, está Minas Gerais, com 143 Agtechs. Por outro lado, Maranhão e Amapá aparecem com uma agtech cada, enquanto Roraima e Rondônia não têm atividades no setor.

“O ativo mais importante para a criação dessas empresas é capital humano capacitado. Então, esses locais com certeza devem continuar a concentrar as Agtechs nos próximos anos, não por serem onde está o capital financeiro ou os mercados consumidores, mas por serem onde está a mão de obra qualificada”, aponta Jardim.

Estados com mais agtechs do país

Fonte: Radar Agtech

Entre 315 cidades, 12 se destacam por somar 50,7% de todas as Agtechs mapeadas. Líder isolada, a cidade de São Paulo aparece em 1º lugar, com 345 empresas (21,9% do total nacional).

A capital paulista também foi a única da América Latina classificada entre os 30 ecossistemas mais relevantes do mundo no Ranking dos Ecossistemas de Startups de 2020 (18ª posição) e no Relatório Global dos Ecossistemas de Startups (30ª).

Fora do circuito das capitais, o 2º lugar é ocupado por uma cidade com menos de 500 mil habitantes: Piracicaba ocupa o posto, com 60 startups.

Entre as 12 cidades com mais Agtechs, aparecem ainda Curitiba (59), Rio de Janeiro (54), Campinas (48), Porto Alegre (42), Belo Horizonte (40), Ribeirão Preto (39), Florianópolis (36), Londrina (28), Uberlândia (26) e Goiânia (21).

Cidades com mais agtechs do país

Fonte: Radar Agtech

Exceto por Londrina, todas as demais cidades já faziam parte do Top 12 em 2019. Contudo, elas não permaneceram nas mesmas posições, em um movimento que refletiu a representatividade de cada região. Por exemplo, enquanto Curitiba subiu de 5º para 3º lugar, Ribeirão Preto caiu de 4º para 8º.

Para Raphael Ivan, CEO da EasyFarm, essa mudança no ranking não deve ser entendida com um cenário menos atraente para o desenvolvimento de startups. Pelo contrário, a fim de cumprir as exigências de um novo investidor, o empreendedor precisou transferir a empresa do Sul de Minas, onde era a sede até aquele momento, para o interior de São Paulo.

“Vir para Ribeirão Preto era uma das cláusulas do contrato. Mas com essa mudança, ficamos centralizados em uma região extremamente produtiva, que permite testarmos nossas soluções diretamente com os clientes, além de estarmos no epicentro dos negócios. E quando falamos de mão de obra, temos pessoas extremamente qualificadas pelas universidades e cursos que tem por aqui”, argumenta.

Conhecida como ‘Uber de abelhas’, startup criada em Ribeirão Preto movimenta soluções ‘dentro da fazenda’ mapeadas pelo Radar Agtech — Foto: Agrobee/Divulgação

Tecnologia em todos as etapas

Além da analise geográfica, o Radar Agtech 2020/2021 mapeia as 1.574 agtechs de acordo com 33 categorias, considerando três segmentos das atividades no campo, incluindo não só o campo, mas também atividades laboratoriais, comerciais e logísticas:

  • Antes da fazenda: inclui áreas como fertilizantes, créditos, seguros, sementes, análises laboratoriais, nutrição animal, gênomica reprodução animal, entre outras;
  • Dentro da fazenda: inclui gestão de propriedade, dados, drones, sensoriamento remoto, internet das coisas meteorologia, irrigação, manejo de pragas, entre outras soluções;
  • Depois da fazenda: contempla questões como alimentos inovadores, plataformas de produtos agropecuários, armazenamento e logística, biodiversidade, sustentabilidade, sistema de embalagem etc.

Em termos de volume, as atividades dentro da fazenda são as que mais se expandem, saltando de 35% em 2019 para 41,7% em 2021, e hoje somam 657 empresas. Mesmo assim, as agtechs que atuam nas fases “depois da fazenda” ainda são a maioria, com 45,6%, o que representa 718 startups.

As soluções pensadas para processos que acontecem antes da fazenda somam 12,6%, com 199 iniciativas.

São Paulo é o único estado que apresentou pelo menos uma startup em todos os 33 segmentos descritos. Em seguida, aparecem Minas Gerais (29), Santa Catarina (28) e Paraná (27).

Quando analisadas as cidades, São Paulo registrou agtechs de 32 das 33 categorias, seguida por Piracicaba (23), Curitiba (22), Campinas (22), Rio de Janeiro (21), Ribeirão Preto (20), Florianópolis (19) e Belo Horizonte (18).

Na etapa classificada como anterior à fazenda, a maioria – 46 – atua com fertilizantes, inoculantes e nutrição vegetal. Dentro da fazenda, o destaque são plataformas que oferecem sistemas de gestão de propriedade rural (154).

No pós-fazenda, a liderança fica com as empresas de alimentos e novas tendências alimentares (293).

Veja, abaixo, quais atividades mais mobilizam as agtechs por categoria e sua participação em relação ao total de startups do agro no país:

  • Alimentos inovadores e novas tendências alimentares: 293 (18,6%)
  • Sistema de Gestão de Propriedade Rural: 154 (9,8%)
  • Plataforma integradora de sistemas, soluções e dados: 111 (7,1%)
  • Marketplaces e plataformas de negociação e venda de produtos agropecuários: 100 (6,4%)
  • Drones, máquinas e equipamentos: 79 (5,0%)
  • Sensoriamento remoto, diagnóstico e monitoramento por imagens: 70 (4,4%)
  • Conteúdo, educação, mídia social: 58 (3,7%)
  • Armazenamento, infraestrutura e logística: 57 (3,6%)
  • Fertilizantes, inoculantes e nutrição vegetal: 46 (2,9%)
  • Mercearia on-line: 45 (2,9%)

Inovações e investimentos

Assim como a EasyFarm, a AgroBee, criada em Ribeirão Preto em 2018, é uma das empresas que impulsionam o predomínio das soluções dentro da fazenda, mas é uma das únicas na categoria de apicultura e polinização.

Conhecida pela solução chamada de “Uber de abelhas”, a empresa busca aumentar a produtividade e a qualidade das lavouras, levando até elas determinados tipos de abelhas, que são selecionadas de acordo com a necessidade de polinização da cultura cultivada no local.

A inovação garantiu um aporte de R$ 1,2 milhão por meio de um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“Já tivemos também duas rodadas de investimentos da AgroVen [associação de investimentos voltada para Agtechs] que oferece não só o recurso financeiro, mas também o que chamamos de ‘smart money’, quando somos indicados nos fundos de ações. Estamos com uma rodada aberta, na qual um terço do aporte já foi realizado”, destaca a co-fundadora Andresa Berretta.

De acordo com Francisco Jardim, idealizador do Radar Agtech, todo o ecossistema de tecnologia no agronegócio tem chamado atenção de investidores e fundos nacionais e internacionais, principalmente por oferecer vantagens competitivas decorrentes de uma cadeia produtiva enorme, que exige a criação diária de novas soluções.

“Estão percebendo que o Brasil não só tem um mercado agrícola enorme, mas está se expandindo, com diferenciais tecnológicos que atacam problemas locais. Além disso, o Brasil lidera a maioria das grandes commodities agrícolas, e existe a percepção de que se trata de uma cadeia muito defensiva, no sentido de que o mercado performa bem, mesmo quando o país vai mal”, aponta.

Diante desse cenário, para ele a perspectiva para os próximos anos é que as agtechs continuem crescendo em quantidade, valorização e liquidez.

“Nossa projeção é muito boa. No próximo ciclo imaginamos que vamos ver um crescente destaque de fintechs do agro, atuantes nas áreas de finanças; e-commerce e marketplace; de produtos biológicos; e, talvez, a grande novidade sejam as climate techs, empresas inseridas nas agtechs, mas que atacam de forma direta as questões de mudança climática”, prevê.

VÍDEOS: Tudo sobre o agronegócio na região



Fonte:G1