Abelhas-sem-ferrão melhoram produtividade de hortaliças em estufas


Uma pesquisa científica mostrou que o uso de abelhas-sem-ferrão para a polinização de hortaliças em estufas, pode impulsionar a produtividade das plantas. O trabalho abordou dois desafios de cultivos em ambientes protegidos: a adptação dos insetos às condições das estufas brasileiras e a oferta insuficiente de colônias para atender à demanda.

A pesquisa foi realizada pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), em parceria com a Embrapa Meio Ambiente (SP), a Universidade de Brasília (UnB) e a Fazenda Malunga (DF).

Pesquisa sobre uso de abelhas-sem-ferrão no cultivo de hortaliças

O estudo faz parte do projeto “Aclimatação, seleção, e desenvolvimento de método de produção de ninhos de abelhas-sem-ferrão para polinização de culturas em ambientes protegidos”, liderado pela pesquisadora Carmen Pires, que selecionou três espécies de abelhas-sem-ferrão para os experimentos: a moça branca (Frieseomelitta varia), mandaguari (Scaptotrigona cf. postica) e a mandaçaia (Melipona quadrifasciata).

Foram avaliados os comportamentos de cada espécie em relação a diferentes condições de luminosidade e temperatura. As abelhas selecionadas têm tamanhos diferentes, distribuição geográfica ampla e os meliponicultores possuem um certo domínio com o manejo delas, o que facilita obter colônias certificadas e, ao mesmo tempo, trocar conhecimento sobre esses insetos.

No experimento, abelhas mandaçaia aumentaram a produtividade de tomate italiano em 20%.
No experimento, abelhas mandaçaia aumentaram a produtividade de tomate italiano em 20%. Foto: Lucas Borges/Embrapa

Ambientes e preferências alimentares

A pesquisa foi realizada durante quatro anos em condições controladas (arenas para bioensaios) e em plantios comerciais em casas de vegetação da Fazenda Malunga, empresa de produção orgânica de hortaliças localizada no Distrito Federal.

O desafio da pesquisa foi entender as peculiaridades de cada espécie, cada uma com hábitos, tipos de voo e preferências alimentares próprias. Segundo Pires, elas precisam inicialmente se aclimatar (habituar) ao ambiente da casa de vegetação e, só então, irão visitar e polinizar as flores da cultura-alvo.

Nas casas de vegetação, por exemplo, a adaptação depende dos materiais de cobertura desses locais, que em geral são feitas com filmes plásticos que filtram, em alguns casos, mais de 90% dos raios ultravioletas (UV). Essa técnica é utilizada para desorientar insetos-pragas. No entanto, as abelhas-sem-ferrão também orientam o seu deslocamento por meio dos raios UV.

A equipe constatou que filmes plásticos que filtram cerca de 40% da luz UV proporcionam voos orientados, permitindo que os insetos polinizem as flores e voltem aos ninhos. Para ameninzar a limitação da falta de controle de temperatura da maior parte dos ambientes cobertos, que acabam ficando quente demais para os insetos, foi necessário aumentar o tamanho da casa de vegetação.

Foram trabalhadas casas com cerca de sete metros de altura no centro e, assim, conseguimos uma temperatura em que a abelha se adapta, consegue achar a fonte de recurso e voltar para o ninho.

Trabalho descobriu preferências de cada espécie de abelha para determinadas culturas.
Trabalho descobriu preferências de cada espécie de abelha para determinadas culturas. Foto: Lucas Borges/Embrapa

Ambiente ideal para sobrevivência das abelhas

Com alimentação, temperatura e luminosidade ao gosto das abelhas, os pesquisadores encontraram evidências sobre as preferências de cada espécie por cultura. Para polinizar cem pés de tomate italiano, por exemplo, é necessária uma caixa da abelha-sem-ferrão mandaçaia. Entre o tomate italiano e o cereja, as mandaçaias preferiram o primeiro. Nos bioensaios em arenas, os resultados mostraram que a espécie mandaçaia obteve uma melhor adaptação e maior busca por recursos a uma temperatura amena de cerca de 23 ºC.

A resposta da abelha moça branca foi positiva quando em situação de maior luminosidade, tendo mais atividade, a uma temperatura média de 29 ºC. A redução da luz UV pode influenciar na atividade de alimentação.

Já as abelhas mandaguari não se acostumaram ao ambiente oferecido nas arenas de bioensaio: a espécie não fez visitas às fontes de recursos e, em alguns dias, a pesquisadora observou que a entrada do ninho foi totalmente fechada. Isso significa um comportamento típico de estresse dessas abelhas.

Aumento de produtividade de tomateiros

Após os resultados dos experimentos, o empresário Joe Valle, proprietário da Fazenda Malunga, decidiu adotar o uso das abelhas-sem-ferrão na polinização dos tomateiros orgânicos cultivados em estufas. As abelhas podem evitar, inclusive, o alastramento de fungos nas folhas das plantas.
O tomateiro, Lycopersicon esculentum Mill (Solanaceae) é uma espécie polinizada a partir da vibração das suas flores. Por isso, Valle utiliza soprador, técnica para fazer as flores dos tomateiros vibrarem. A técnica, por outro lado, ajuda a espalhar fungos pelos pés de tomates.

A abelha mandaçaia, contudo, da mesma forma que o soprador, fazem as flores dos tomateiros vibrarem enquanto coletam o pólen; todavia, ao contrário da máquina, não espalham os fungos. Esse foi um dos motivos de o empresário resolver adotar a partir de agora as abelhas em cultivos de tomateiros orgânicos.

Os resultados da polinização assistida pela abelha mandaçaia, em tomateiros das variedades italiano e cereja, mostraram que, na qualidade dos frutos avaliados, houve um incremento de produção nos grupos em que foram usadas as mandaçaias. A polinização das abelhas resultou em um aumento de 20% na produtividade no tomate italiano.

O empresário enfatiza que o uso das abelhas-sem-ferrão em casas de vegetação, além de ajudar na produção e produtividade, possibilita um mercado aos meliponicultores, onde poderão ter seus negócios alugando as abelhas.



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