2020, um ano vivido pelas telas | Retrospectiva 2020

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Nunca ficamos tanto tempo em frente a telas ou dependemos delas como em 2020. O computador e o celular viraram nossos olhos, braços e pernas no isolamento pelo coronavírus.

Ninguém escapou: das crianças em aulas online improvisadas, que aprofundaram desigualdades, ao vovô aprendendo às pressas como fazer chamadas em vídeo para matar a saudade. E levante a mão quem não cometeu uma gafe na reunião virtual.

Onde havia mais renda e a possibilidade de ficar em casa, foi a internet que abasteceu as famílias não só com delivery de comida, mas de tudo – até as vendas de notebooks aumentaram, junto com itens que ajudaram a montar o tal “home office” às pressas.

Mas… um esperado fim da pandemia em 2021 não vai mudar o curso desses movimentos – eles já existiam, só foram acelerados. Veja abaixo como 7 tendências de 2020 devem continuar tendo impacto na sua vida digital, segundo especialistas ouvidos pelo G1.

1) Videconferência: amor e ódio

Sim, as reuniões virtuais geraram memes divertidos e também situações constrangedoras. E, mesmo que depois que todo mundo passou a fugir dos “happy hours” online, as videochamadas continuaram sendo fundamentais para estudo e trabalho – isso porque o home office também veio para ficar (veja mais abaixo).

“(Videoconferência) Foi a tecnologia que mais ajudou a passar pelo período – se não fosse, estaríamos em outro momento em termos de economia”, diz Paulo Ossamu, diretor-executivo de Tecnologia da consultoria da Accenture.

Se “happy hours” virtuais e lives de música já saíram de moda, reuniões de trabalho online e cursos remotos seguirão em alta. Os atendimentos médicos também irão mais nesse caminho.

2) ‘Home office’: oportunidade e improviso

O publicitário Fernando Ribeiro, que agora faz home office por causa da pandemia, teve de improvisar o trabalho na mesa de jantar e agora sente dores — Foto: Arquivo pessoal

Muita gente teve de improvisar às pressas o “home office” na mesa da sala ou da cozinha quando companhias decidiram deixar os funcionários em casa como prevenção à Covid.

A pandemia amadureceu uma ideia que já estava no ar. “Achávamos que iria demorar de 3 a 5 anos para as empresas adotarem o trabalho à distância de forma ampla”, observa Ossamu, da Accenture.

As empresas enxergaram o lado positivo: seus negócios continuavam sendo feitos mesmo com os escritórios vazios – e isso também gerava economia, destaca Márcia Ogawa, sócia-líder de tecnologia da consultoria Deloitte.

O teletrabalho também deu oportunidades para empresas contratarem profissionais que não moram em grandes centros urbanos – às vezes nem no mesmo país.

  • As vendas de notebooks subiram 18% neste ano, segundo projeção da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Em contrapartida, as de smartphones devem cair 5%.
  • No Mercado Livre, a venda de cadeiras de escritório saltou 1.362% de março a junho em relação ao mesmo período do ano anterior.

Foi bom para todo mundo? Não. Um estudo nos Estados Unidos apontou que trabalhadores passaram a relatar mais problemas de bem-estar mental e físico, principalmente as mulheres e os que ganhavam menos.

“Ao trabalhar através da tela, existe um excedente de trabalho, a pessoa tem que estar sempre disponível”, aponta Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

“Pode ser que nem todo mundo se sinta bem trabalhando em casa. Isso precisa ser levado em conta na hora de desenhar qual vai ser o modelo pós-pandemia”, diz Oliver Kamakura, sócio de consultoria em gestão de pessoas da EY Brasil.

A tendência é que seja adotado um modelo híbrido de trabalho, com parte dos funcionários em casa e outros no escritório – ou com rodízios, afirmam os especialistas.

Entregadores de aplicativo fizeram protestos em São Paulo e outras capitais em julho — Foto: Anderson Lira/Framephoto/Estadão Conteúdo

Quem nunca comprou online passou a comprar. Os grandes varejistas comemoraram; os médios e pequenos tiveram de se adaptar ao comércio eletrônico para sobreviverem.

As plataformas de delivery também explodiram em popularidade, mas isso pressionou os entregadores, que organizaram um protesto em diversas cidades por melhores condições de trabalho.

Uma pesquisa da Serasa divulgada em outubro apontou que um em cada quatro brasileiros estava cortando gastos desnecessários.

Além da economia, a manutenção da boa fase do comércio online dependerá da satisfação do consumidor em relação à facilidade de encontrar produtos nas diversas plataformas, a preços competitivos e flexibilidade e qualidade de entrega, diz a Ebit/Nielsen.

“O comércio passará também a oferecer mais experiências híbridas, como compre no site e retire na loja, ou conheça na loja e compre pelo site”, aponta a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm).

PIX foi lançado em setembro. — Foto: Guilherme Rodrigues/Myphoto Press/Estadão Conteúdo

Não só se comprou mais online, como aumentaram as formas pagamentos. O uso de QR Code e da opção “contactless”, que permite pagar somente encostando o cartão de crédito ou celular na maquininha, ganhou mais espaço em 2020. Em setembro, o Banco Central lançou o PIX.

A carteira digital “deu acesso a pessoas não bancarizadas”, observa Paulo Ossamu, da Accenture.

  • As fintechs atraíram clientes durante a pandemia, parte deles impulsionada pelo recebimento do auxílio emergencial.
  • O Mercado Pago diz que 7,3 milhões de beneficiários abriram uma conta para usar o dinheiro depositado na Caixa. No Nubank, mais de 720 mil clientes resgataram o benefício pela conta digital.
  • O PicPay vinha abrindo cerca de 500 mil contas mensalmente. A partir da segunda metade de março, o isolamento social fez esse ritmo subir seis vezes, disse o presidente da empresa, Gueitiro Genso à Reuters.

Segundo Genso, pequenos negócios, como bares e restaurantes, um dos segmentos mais diretamente atingidos pela política de distanciamento, passaram a recorrer mais a pagamentos digitais.

“Muita gente foi forçada a usar o online (nas compras). As plataformas se profissionalizaram e deram mais segurança”, afirma Márcia Ogawa, da Deloitte. Mas “existem camadas da população, como os idosos, que não conseguem se acostumar“, completa.

Uso da nuvem exige conexão constante com a internet. — Foto: Altieres Rohr/G1

O “home office” e o salto das compras online também aceleraram o armazenamento de dados e processamento em nuvem pelas empresas.

“90% das empresas já vinham usando, só que tinham apenas de 20 a 30% dos seus sistemas na nuvem. Com tudo o que aconteceu na pandemia, estamos vendo que agora elas devem jogar 80%”, diz Paulo Ossamu, da Accenture.

  • O gasto com esse tipo de serviço no 3º trimestre de 2020 foi 32,5% maior do que o mesmo período do ano passado, segundo estimativa da empresa de análise Canalys.
  • As três grandes empresas que oferecem armazenamento e processamento na nuvem cresceram no 3º trimestre de 2020, comparado com o ano anterior. A líder Amazon Web Services teve alta de 29%; a Azure, da Microsoft, 48%; e o Google Cloud, 45%

Cada vez mais abrangente, o armazenamento em nuvem ainda enfrenta desafios como os vistos quase no fim do ano, com a breve pane mundial no Google e o problema de refrigeração no data center da IBM que tirou do ar diversos serviços, inclusive o aplicativo Caixa Tem.

6) Redes sociais em xeque

Donald Trump em Las Vegas, em 18 de outubro de 2020. Presidente dos EUA teve diversas publicações nas redes sociais marcadas ou removidas. — Foto: REUTERS/Carlos Barria

As redes sociais se deram bem com a vida virtual forçada pela pandemia. Mas também continuaram na mira dos que pedem regulação.

Além do coronavírus, dois eventos marcantes de 2020 aumentaram a cobrança sobre moderação de conteúdo: as eleições americanas e a morte de George Floyd.

No primeiro, as queixas principais foram quanto à circulação de dados falsos nas redes, ainda na campanha. E o caso Floyd levou a um boicote de grandes anunciantes contra a disseminação de discursos de ódio.

Sob pressão, as empresas começaram a agir:

A automatização virou desafio das empresas de tecnologia na moderação de conteúdo. Com o isolamento, muitos funcionários passaram a trabalhar à distância, e o uso desses sistemas cresceu.

“Existem questões de capacidade dessas ferramentas (de moderação), se elas são capazes de distinguir contexto”, destaca a pesquisadora de políticas da digitalização Clara Iglesias Keller.

Para a pesquisadora, esse tema se relaciona com a discussão sobre o monopólio das grandes empresas de tecnologia. Em 2020, foram abertos processos contra Google e Facebook nos EUA por práticas anticompetitivas, mas as ações judiciais devem seguir durante anos até um desfecho.

“As plataformas têm um grande poder de controlar o que pode ou não ser colocado (online), e isso acontece também porque possuem muito poder econômico”, observa Clara.

7) Cansaço real do virtual

Vídeochamadas diminuíram as distâncias, mas olho no olho é insubstituível. — Foto: Prefeitura de Pato Branco/Divulgação

Tanta tecnologia salvou, mas também cansou. O Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP tem recebido mais pedidos de ajuda por conta do uso excessivo de tecnologias.

“Cada vez mais está havendo um descontrole do uso [da internet] porque agora existe uma justificativa para isso. Mas as pessoas não aguentam, isso cria uma saturação mental”, diz o psicólogo Cristiano Nabuco, que coordena o grupo.

A necessidade de estar online não vai desaparecer, mas não substituirá o “olho no olho”.

“Ao interagir pessoalmente com uma pessoa, o cérebro utiliza outros sinais, além da fala, para entender a mensagem. Faz isso de maneira automática, analisando os gestos, o tom de voz, sem exaustão. Na internet, é preciso uma superatenção e a tendência é que a pessoa vá perdendo o foco e dispersando”, explica Nabuco.

Mas alguns hábitos das relações digitais vão ser absorvidos, diz Michel Alcoforado, sócio do Grupo Consumoteca.

“Agora vamos saber dividir aquele tipo de relação que precisava ser levada para a vida real daquelas que se bastam no digital”, afirma o antropólogo.

“O novo normal não vai chegar, porque já o estamos vivendo. Lógico que voltaremos a ter facilidade de nos deslocar, mas não voltará a ser o que era.



Fonte: G1