‘Um Certo Senhor Gabriel’: documentário resgata memória de filho de índia e ex-escravo que transformou cacos na Casa da Flor | Região dos Lagos

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Estreia nesta quinta-feira (13), Dia da Abolição da Escravatura, o documentário “Um Certo Senhor Gabriel”, que conta a história de Gabriel Joaquim dos Santos, criador da Casa da Flor, localizada em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos do Rio. O documentário será lançado às 19h, no YouTube.

Filho de uma índia e de um ex-escravo, Gabriel começou a criar sua própria casa em 1912. A construção com paredes em taipa e esteios em madeira roliça foi decorada com mosaicos, esculturas e enfeites criados a partir do lixo e objetos quebrados, e se tornou fonte de inspiração para grandes nomes da cultura brasileira, como Ariano Suassuna.

Documentário sobre Gabriel Joaquim dos Santos, criador da Casa da Flor, estreia nesta quinta-feira (13) — Foto: Divulgação

De acordo com o diretor do documentário, Marcelo Valle, mais do que falar da obra de Gabriel, que com arquitetura única se tornou conhecida em todo o país e foi declarada patrimônio cultural material brasileiro, o documentário aborda a vida do próprio autor.

“Considerado ‘maluco’ por muita gente, Gabriel era um homem à frente de seu tempo. O filme faz uma atualização de Gabriel através das anotações deixadas por ele em seus diversos cadernos. Não é mais uma narrativa sobre a Casa da Flor, sua principal obra, muitas vezes comparada às obras de Gaudí. Gabriel Joaquim dos Santos, não é o ‘Gaudí brasileiro’, é um artista popular do Brasil absolutamente antenado nas coisas de seu tempo e de sua ‘Aldeia’ . Apresentamos um Gabriel politizado e atuante na sua comunidade”, conta Marcelo.

Documentário reúne histórias do filho de uma índia e de um ex-escravo, Gabriel Joaquim dos Santos, e de sua Casa da Flor — Foto: Divulgação

No documentário, a história de Gabriel é narrada por jovens moradores da região.

“Falar sobre Gabriel é falar de uma memória individual para trazer memórias coletivas. Partimos do desconhecimento sobre o artista quando trabalhamos com jovens de cursos livres da região, vimos que era muito importante falar sobre os homens da terra, sobre as memórias da cidade de São Pedro da Aldeia, do reconhecimento da própria população da sua arte”, explica a produtora Anna Fernanda Corrêa.

Confira o teaser de “Um Certo Senhor Gabriel”

Depois da morte de Gabriel, em 1985, a casa ficou aos cuidados do sobrinho neto do artista, Valdevir dos Santos, que também terá sua história contada no documentário.

O documentário é realizado pelo coletivo teatral En La Barca Jornadas Teatrais e desenvolvido por meio da Lei Aldir Blanc.

História da Casa da Flor

Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, RJ, é mantida por meio de projetos culturais — Foto: Jefferson Viana/ASCOM

Em 1912, Gabriel Joaquim dos Santos (1892-1985), um trabalhador nas salinas, em São Pedro da Aldeia, filho de uma índia e de um ex-escravo decidiu construir sua própria casa com criatividade. Singela, com paredes em taipa e utilizando esteios em madeira roliça, o que chama a atenção é aquilo que o próprio Gabriel dizia ser uma “casa feita de caco transformado em flor”.

Quando a construção de sua casa já estava em andamento, Gabriel contou que, em 1923, inspirado por um sonho, começou a embelezar a casa com mosaicos, esculturas e enfeites diversos coletados no lixo e a partir de objetos quebrados. Segundo ele, eram “coisinhas de nada”; eram búzios, conchas e outros depósitos da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis que transformaram a construção.

Após a morte do seu proprietário, a casa foi recuperada com recursos públicos e é mantida por meio de projetos culturais. A casa possui um tutor, o sobrinho do Gabriel, que cuida da conservação da propriedade e da recepção aos visitantes.

Quem chega à casa passa, primeiramente, por uma pequena escadaria guarnecida de pedras e ladeada de flores confeccionadas por cacos de louças e telhas. Nenhum arranjo é igual a outro. Um corredor externo delimitado por um muro igualmente feito de coisas quebradas determina um primeiro espaço de convivência, ao ar livre, onde há um banco com motivos abstratos e figurativos, como flores, folhas, cachos de uva, carrancas.

Internamente, a casa em formato de T, guarda outras surpresas, já que até mesmo o observador mais atento não consegue perceber todos os elementos que compõe os seus três ambientes.



Fonte: G1