Trancos e barrancos: Cabofriense engrena na Série D com folha de R$ 75 mil e estádio sem luz

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Coutinho ampliou o marcador para a Cabofriense — Foto: Bruninho Volotão / Cabofriense

Último escalão do Campeonato Brasileiro, a Série D é o palco da periferia do futebol. E a Cabofriense, mesmo dentro desse cenário, briga pelo posto de mais modesto entre os modestos: a folha salarial do seu elenco é de R$ 75 mil, seu estádio está há mais de um ano sem energia elétrica e todo o investimento no futebol sai do bolso do presidente do clube. Ainda assim, a equipe engrenou e está a uma simples vitória das oitavas de final.

Para subir de divisão, o time de Cabo Frio precisa chegar nas semifinais porque só os quatro melhores se classificam para a Série C do Brasileirão – competição que a equipe já disputou em outras três ocasiões (2003, 2005 e 2006), época em que ainda não havia a Série D. Por isso, trataria-se de um acesso inédito. “Ainda falta muito, mas já estivemos mais longe”, sentencia o técnico Toninho Andrade.

Aos trancos e barrancos, a Cabofriense terminou a primeira fase em terceiro no seu grupo, com sete vitórias, quatro empates e três derrotas (dessas, duas aconteceram nas duas últimas rodadas, quando o time já estava classificado). A campanha teve por exemplo um acachapante 7 a 0 sobre o Nacional-PR na 12ª rodada, que só não foi a maior goleada da edição até aqui porque o mesmo Nacional-PR tomou oito do Mirassol e o São Caetano perdeu por 9 a 0 para o Pelotas.

– A gente montou um time jovem, que cabe no nosso bolso com toda essa dificuldade que estamos passando. Mas é um time que acabou dando uma liga interessante, é um time que tem uma união fantástica, uma dedicação máxima. Se formou uma grande família nesse momento difícil que estamos vivendo, sem dinheiro, sem patrocínio – conta o presidente Valdemir Mendes.

– No último jogo agora, a Cabofriense amassou o adversário, era para ter vencido por três ou quatro. Mas eu estou tão confiante nesse grupo que tenho certeza que vamos nos classificar. Já soube que o campo lá é muito bom, e nosso time gosta de tocar a bola – completou.

Valdemir se refere ao 1 a 1 com o São Luiz-RS no último domingo, em Cabo Frio, pelo jogo de ida da segunda fase. Os visitantes abriram o placar logo aos dois minutos de jogo, mas a Cabofriense martelou até conseguir o empate aos 10 do segundo tempo e ainda teve várias chances para virar. O segundo jogo é no próximo domingo, na cidade de Ijuí, e quem vencer avança para as oitavas de final.

Esse era um cenário impensável no início do ano, quando a Cabofriense foi rebaixada para a Seletiva do Campeonato Carioca com uma campanha de 10 derrotas em 11 jogos. A parceria com um grupo de investidores para o estadual não funcionou, e os salários atrasados só acentuaram o momento conturbado em meio à sequência de resultados negativos.

– O time no estadual não encaixou, o início do trabalho não foi legal. E a gente tinha aqui um grupo trabalhando com a gente que, quando chegou a pandemia, nunca mais ligou. Foi embora… só que a conta fica aqui né. Tivemos que corrigir esses erros, e é isso que a gente está fazendo. Resolvemos voltar a botar a mão nisso e fazer um time – explicou o presidente Valdemir.

Para a Série D, a Cabofriense montou um time por conta própria. Não há cotas de televisão na competição, embora os jogos estejam sendo transmitidos pela MyCujoo. A plataforma ofereceu um pacote de placas de publicidade, mas não houve tempo hábil para que encontrassem potenciais anunciantes, de modo que o clube não ganha nada com a exposição de sua imagem. De toda forma, o entendimento da diretoria é que, mesmo se houvesse entrada de caixa com publicidade, seria um valor irrisório.

A primeira providência tomada foi pegar emprestado a comissão técnica inteira do Madureira, negociação facilitada pela amizade de longa data entre os presidentes Valdemir Mendes e Elias Duba. O Tricolor Suburbano também emprestou alguns jogadores, casos de Wander, Larusso e Rhuan. O técnico Toninho Andrade recheou o elenco com atletas da base, e a diretoria ainda completou a montagem com transferências e empréstimos que coubessem no bolso.

Gustavo Coutinho chegou nessa leva. Aos 21 anos, o atacante foi cedido pelo Fortaleza e encaixou como uma luva na equipe de Cabo Frio. Ele é um dos artilheiros do campeonato com nove gols, sendo dois hat-tricks.

– Acho que a gente encaixou na competição porque abraçou a filosofia de trabalho do professor Toninho e a sua comissão, procuramos fazer sempre o que ele pediu e acredito que a equipe tem caminhado bem para o sucesso com a filosofia dele, com as ideias de treino. Espero que no próximo domingo a gente possa fazer rum bom jogo e passar para a próxima fase – disse Coutinho.

A Cabofriense gasta R$ 75 mil com a folha salarial dos seus 33 atletas. A despesa total com o futebol por mês é de cerca de R$ 200 mil, incluindo os salários da comissão técnica, dos funcionários do setor administrativo e dos gastos com as partidas. Embora a CBF arque com passagens e hospedagem nos casos de jogos fora, os clubes mandantes são os responsáveis pelo pagamento da taxa de arbitragem e pelos testes de Covid dos árbitros, por exemplo. Quando joga em casa, a Cabofriense não faz concentração porque não tem dinheiro para isso.

Mas se o clube não recebe verbas de televisão e não tem patrocinadores, de onde vem esse dinheiro? A resposta é: do bolso do presidente.

“Não temos outra fonte de renda que não seja o meu bolso. O dinheiro sai daqui, não tem jeito. Faço isso para que o time não morra, para que a cidade não morra, que continue respirando futebol. O único vício que eu tenho na minha vida é o futebol. É a minha paixão. Eu me arrebento todo para ver esse time jogando”, afirma Valdemir Mendes.

Repare que o uniforme da Cabofriense é todo limpo, exceto pelo espaço do patrocinador master na parte frontal, onde está estampada a marca “Casa do Pedreiro”. A empresa do ramo de materiais de construção, referência na Região dos Lagos e que pertence a Valdemir, é a única fonte de renda do clube.

– Nós fizemos um pacto entre nós de eles aceitarem o que temos a oferecer e nós assumirmos o compromisso de deixar tudo em dia – conta Valdemir. – Temos uma comissão técnica excepcional, que sabe das nossas dificuldades. Nós conversamos com eles sobre não podermos pagar muito, mas que íamos pagar. E não atrasamos um dia sequer o salário aqui. Não tem bicho, não tem premiação, só o que fizemos foi assumir o compromisso do salário. E a resposta deles têm vindo.

O técnico Toninho Andrade, que foi campeão da Série B do Carioca com a Cabofriense em 2013, disse que foi seduzido pela transparência.

– Foi exatamente assim, nós tivemos uma conversa, e ele falou qual era a realidade do clube. Falou que era assim e que nós íamos procurar fazer um time dentro dessa realidade. A única coisa que eu pedi é que ele cumprisse com o compromisso. Montamos um time dentro dessa realidade. Um time coeso, competitivo – disse o treinador de 56 anos.

Toninho Andrade, técnico da Cabofriense na Série D do Brasileirão — Foto: Bruninho Volotão/Cabofriense

ESTÁDIO ESTÁ SEM LUZ HÁ MAIS DE UM ANO

O Estádio Municipal Alair Corrêa, o Correão, está sem energia elétrica há mais de um ano – nem a Cabofriense nem a prefeitura de Cabo Frio souberam dizer com precisão quando a luz foi cortada. O estádio de gestão municipal recebe tanto os jogos quanto os treinos da equipe, que ainda não possui um centro de treinamento.

Acontece que a prefeitura da cidade tem uma dívida milionária com a empresa que faz o abastecimento de energia elétrica na região. Em função disso, a luz do Correão foi cortada em algum momento do ano passado. A Cabofriense desde então não tem mais mandado seus jogos à noite. Só que, com o objetivo de dar mais conforto aos jogadores e funcionários no estádio, o clube recentemente investiu R$ 70 mil num gerador. E gasta em torno de R$ 500 para abastecê-lo a cada dois ou três dias.

– Ainda tem isso, estou tocando o estádio a óleo diesel. Ainda tenho que dar uma de síndico. O que é uma pena porque, mal ou bem, o clube divulga Cabo Frio – lamenta Valdemir Mendes.

Por sua vez, Flávio Rebel, secretário de Esportes de Cabo Frio, acredita que o investimento da Cabofriense é uma “contrapartida”, já que o clube não paga aluguel para usar o estádio. Segundo ele, no momento a dívida total da prefeitura passa de R$ 1 bilhão.

– A Cabofriense joga num estádio público, não tem CT para treinar. Então eles dizem que estão fazendo isso e aquilo, mas os funcionários que cortam a grama lá no estádio não são da Cabofriense, são nossos. Eles não têm estádio, então dependem do estádio público para treinar e jogar. Os clubes têm suas estruturas, mas a Cabofriense foi criada dentro do setor público, então não pode falar muito sobre isso. O fato de eles estarem botando a luz é uma contrapartida porque a prefeitura está passando por dificuldades, e está passando já há bastante tempo. Se eu acender a luz do estádio, eu não pago os funcionários – afirmou o secretário.

A Cabofriense não é um time da prefeitura, mas usa o espaço da prefeitura. A gente entrou no período de pandemia, você tem uma UPA para pagar a luz e um estádio, você paga qual das duas? Eu estou dando só um exemplo de prioridades, já que eles não podem cortar a luz de um hospital. Mas a nossa prioridade acabou sendo os serviços essenciais, é o que eu estou explicando. Apesar disso, eu quero muito que a Cabofriense ganhe – completou.

O segundo jogo entre Cabofriense e São Luiz está marcado para o próximo domingo, às 17h (de Brasília), em Ijuí. Qualquer empate leva a decisão para os pênaltis, já que o gol marcado fora de casa não é critério de desempate.

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©Plantão dos Lagos
Fonte: Globo Esporte (GE)
Fotos: divulgação