“O coronavírus está revolucionando a economia”, diz ex-diretor do Fed

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    Poucos especialistas conhecem tão bem os meandros da agenda fiscal e monetária internacional como o economista americano Edwin Truman. Durante dez anos, entre 1977 a 1998, ele foi diretor do Fed, o banco central americano. Truman só deixou o cargo para exercer, a convite do presidente Bill Clinton, a função de secretário de assuntos internacionais do Tesouro americano. Em 2009, tornou-se conselheiro da instituição. Hoje, o economista é membro de importantes comitês internacionais de políticas econômicas e fiscais, como o Fórum de Instituições Financeiras e Monetárias e o Instituto Peterson, de Washington.

    Truman tem acompanhado atentamente a elaboração dos pacotes de estímulo dos Estados Unidos e outros países no combate às consequências econômicas do coronavírus. “O Brasil, que havia começado a enfrentar o déficit fiscal há bem pouco tempo, pode sofrer mais pressões fiscais que outros países”, diz. “Mas agora é hora de afrouxar os cintos e, em segundo momento, investir mais em políticas de bem-estar social a fim de oferecer uma rede de proteção à população”. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista de Truman sobre a transição no liberalismo deflagrada pela crise do coronavírus e as mudanças nas agendas econômicas mundiais, tema da matéria de capa da EXAME publicada na última quinta-feira, dia 21.

    A crise econômica disparada pelo coronavírus deverá redesenhar a política econômica dos países?

    Os impactos da covid-19 já estão mudando a maneira como vários governos planejam as políticas econômicas para o curto prazo e até para os próximos meses ou anos. Muitos economistas que integram órgãos governamentais reconhecem que agora é necessário fazer o que quer que seja para combater a grave crise de desemprego. Para isso, é necessário que as políticas monetárias e fiscais tenham a maior extensão possível.

    O que muda em relação ao papel do Estado em um momento como esse, de uma grave pandemia que afeta diretamente a economia? O neoliberalismo poderá mudar?

    Pessoalmente, nunca acreditei que princípios neoliberais clássicos representassem uma bússola apropriada para políticas econômicas. Certamente, isso vale ainda mais para os dias de hoje. Mas é preciso destacar que os princípios econômicos de eficiência e de permitir que o sistema de preços funcione, sem interferência governamental, são sólidos. Também é verdade que o mercado pode ser um bom guia para políticas econômicas. Mas o mercado não sabe tudo e não consegue fazer tudo direito. É aí que entra o governo. Só é preciso lembrar que os mandamentos de controle da política fiscal devem ser respeitados, mesmo que os gastos dos governos aumentem agora em função da pandemia.

    Quais são os riscos de afrouxar demais os gastos?

    Muitos países, e não apenas as economias avançadas, têm margem para aumentar seus déficits fiscais num momento como este. Os governos podem fazer isso por meio do aumento de gastos mesmo com as receitas em declínio. Entretanto, quando a crise tiver passado, precisamos ter certeza de retomar o controle dos gastos de forma que o aumento da dívida pública não seja inferior ao crescimento da economia.

    Nesse novo cenário da saúde e da economia internacional, pode ser benéfica a elaboração de políticas de bem-estar social, inclusive em países como os Estados Unidos?

    Os Estados Unidos têm um sistema social muito desigual para uma sociedade moderna e avançada. Os efeitos da crise na população, mesmo com todas as extraordinárias medidas fiscais que foram tomadas, ilustra bem essa fraqueza. Espero que depois dessa crise o país possa desenvolver uma rede de proteção social mais abrangente e coerente, mas isso é só uma esperança e não uma previsão.

    Como o senhor vê as políticas econômicas adotadas pelo Brasil para lidar com a crise?

    Eu não sou tão bem-informado sobre o Brasil como eu costumava ser. Mas diria que a situação fiscal do Brasil, em todos os níveis de governo, não é forte como foi no início do século atual. Isso sugere que o Brasil poderá ficar sob uma pressão fiscal maior que outros países.

     


    Fonte:Exame – Economina