Governo Crivella não sabe onde moram 10% das vítimas do coronavírus na capital

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    Como se não bastassem as subnotificações, a Prefeitura do Rio não tem informações sobre onde moram 10% das vítimas do coronavírus. Na avaliação de especialistas, isso é uma falha grave pois pode comprometer o planejamento das ações de bloqueio para tentar conter a velocidade da expansão da epidemia da Covid-19. A falha nas notificações aparece nas estatísticas que a prefeitura divulga diariamente no Painel Rio Covid-19. No último boletim, consolidado até as 18 horas desta segunda-feira, apareciam 553 casos confirmados. Mas deste total, 55 (10%) apareciam sem informação sobre onde a pessoa mora.

    Por se tratar de uma doença infectocontagiosa de notificação obrigatória, clínicas públicas e particulares devem prestar informações padronizadas às autoridades de Saúde sobre seus pacientes. Na avaliação dos especialistas, é neste ponto que ocorre a falha. Para se ter uma ideia, no boletim anterior, o percentual chegava a 18,6%. Através das estatísticas, as autoridades de saúde tem adotado uma série de medidas. Na semana passada, por exemplo, com base na informação de que boa parte das ocorrências se davam na Barra da Tijuca e na Zona Sul, centrou suas ações na região, incluindo operações para desinfectar estações do Metrô e do BRT.

    O epidemiologista Edmilson Migowisky observa que a operação pode ter sido válida mas não produzir toda a eficácia esperada pela insuficiência de dados. — Nós estamos tratando de uma doença nova. Que toda a informação é fundamental. Não sabemos como esse coranovírus se comporta em um país tropical. Qualquer dado é estratégico. Se não sei onde estão todos os pacientes, como vou isolar quem teve contato com essas pessoas? — questiona. — É um problema adicional — disse Migowiski.

    O ex-secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, reforça as críticas: — Em uma epidemia, uma situação dessas é inadimissível. Revela erro de planejamento. Hoje, todo processo de notificação das clínicas públicas e particulares se dá de forma eletrônica. Tem que ser identificado de quem é a falha. Se da unidade de saúde ou dos laboratórios onde os exames são realizados — observou Daniel Soranz. As omissões não se referem apenas aos dados sobre os endereços dos doentes. Em 48% das notificações não há informações sobre a faixa etária dos pacientes. Em 67,4% não há informações se as pessoas que contraíram a doença tem histórico de viagem ao exterior.

    Integrante da Comissão de Saúde da Câmara do Rio, Paulo Pinheiro (PSOL) engrossa as críticas: — Não se trata de informações apenas burocráticas. Para combater uma epidemia é preciso planejamento. E isso se dá também com uma informação de qualidade que permita avaliar como a doença se comporta pela cidade. Até porque, o que observamos é apenas uma ponta da epidemia. Já que a estimativa é que haja pelo menos dez vezes mais casos que aqueles que foram notificados — disse Pinheiro.

    Em nota, a secretaria municipal de Saúde contesta as críticas, afirmando que as ausências de informações não comprometem as estratégias empregadas para conter a doença. E responsabiliza os laboratórios privados pela omissão da maior parte das informações. ”As medidas restritivas são válidas para toda a cidade, independente de idade e faxia etária”, diz um trecho da nota, acrescentando que as autoridades da vigilância em saúde estão reforçando a necessidade de informar todos os dados dos pacientes.

    ©Plantão dos Lagos
    Fonte: Jornal Extra
    Fotos: divulgação