Órgão antifacção acompanha movimentações em espécie no estado, mas a candidatura envolvida não foi identificada. Dados públicos permitem examinar o financiamento da campanha de Dra. Gabriela, irmã de Dr. Serginho, sem associá-la à apuração.
A circulação de grandes quantias em dinheiro vivo durante a campanha eleitoral no Rio de Janeiro entrou no radar do Escritório Nacional Antifacção, ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A informação foi divulgada pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo, e repercutida por veículos fluminenses. Uma das empresas mencionadas nesse acompanhamento é a Zocar Rio Caminhões.
A pergunta mais importante permanece sem resposta pública: a qual candidatura se refere a movimentação? As informações divulgadas até agora não apresentam o nome de candidato, partido, valor atribuído a uma campanha específica ou documento que permita fazer essa identificação. Relacionar o caso a alguém com base em proximidade política, tamanho da campanha ou circulação de rumores seria transformar uma hipótese em acusação.
A Zocar já apareceu em uma investigação anterior da Polícia Federal. Em 2022, o UOL noticiou que Rodrigo Bacellar utilizou um helicóptero registrado em nome da empresa, citado na Operação Ganância, sobre suspeitas de garimpo ilegal. Esse histórico ajuda a explicar o interesse público pela empresa, mas também não identifica a campanha eleitoral de 2026 mencionada na notícia sobre dinheiro vivo nem demonstra que a Zocar tenha cometido um ilícito nesta eleição.
O que os números mostram em Cabo Frio
A discussão sobre fiscalização do dinheiro eleitoral também interessa diretamente a Cabo Frio. Dra. Gabriela, candidata a deputada estadual pelo PL e irmã do prefeito Dr. Serginho, conduz uma campanha com recursos expressivos. Na prestação de contas parcial reproduzida pela Itatiaia, atualizada em 17 de setembro, constavam R$ 1.079.036,02 em receitas e R$ 943.353,50 em gastos. Desse total arrecadado, R$ 1 milhão havia sido repassado pela direção nacional do PL. O limite de despesas informado para a candidatura era de R$ 1.270.629,01.
É uma arrecadação milionária, sujeita ao exame público de receitas, contratos, fornecedores e comprovantes. Os números, porém, registram recursos declarados à Justiça Eleitoral. Eles não são uma apreensão de dinheiro em espécie e, por si só, não indicam compra de votos. Como a campanha ainda está em andamento, os totais podem mudar até a prestação de contas final.
O apoio político do prefeito à irmã torna a disputa especialmente visível no município. Por isso, cabe acompanhar se os gastos correspondem aos serviços contratados, quem recebeu os pagamentos e se a estrutura da administração municipal permaneceu separada dos atos eleitorais. Essas são perguntas de fiscalização aplicáveis a qualquer candidatura apoiada por quem ocupa um cargo público — não conclusões sobre irregularidades nesta campanha.
Dinheiro de campanha e compra de votos são questões diferentes
Uma campanha pode gastar legalmente com materiais impressos, publicidade e profissionais contratados. Para isso, os recursos precisam seguir as regras de identificação, movimentação bancária e prestação de contas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o dinheiro utilizado na campanha deve transitar pelas contas bancárias específicas, permitindo verificar sua origem e seu destino.
Compra de votos exige outro tipo de prova. Ela ocorre quando se oferece, promete ou entrega dinheiro, bens ou uma vantagem pessoal ao eleitor com a finalidade de obter seu voto. O simples fato de uma candidatura receber muito dinheiro do partido ou contratar atividades de mobilização não comprova essa prática. Da mesma forma, o acompanhamento de quantias em espécie por um órgão de segurança não autoriza apontar um beneficiário eleitoral sem evidências.
A distinção é essencial nesta reta final. O caso noticiado por Lauro Jardim merece apuração sobre quem movimentou os recursos, de onde vieram e para onde foram. Em Cabo Frio, a campanha milionária declarada de Dra. Gabriela merece o mesmo escrutínio público reservado às demais candidaturas de grande porte. Até o momento, não foi demonstrada ligação entre os dois fatos, nem foi apresentada prova de compra de votos pela candidata.
O eleitor pode consultar receitas, despesas, doadores e fornecedores no DivulgaCandContas, sistema público do TSE. Se tiver conhecimento direto de oferta de vantagem em troca de voto ou de uso eleitoral da estrutura pública, pode encaminhar documentos e informações aos canais oficiais da Justiça Eleitoral. A fiscalização ganha força quando começa por fatos verificáveis.
Fontes: reportagem de Lauro Jardim repercutida pelo Diário do Rio; reportagem do UOL sobre o helicóptero da Zocar em 2022; dados de campanha do TSE reproduzidos pela Itatiaia, com atualização financeira em 17/09/2026; orientações do Tribunal Superior Eleitoral sobre prestação de contas e ilícitos eleitorais.






