Assassino de PM em Cabo Frio já foi vítima de extorsão por policiais que hoje servem a deputados da cidade

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Apontado como assassino de um PM do 25º BPM durante operação em Arraial do Cabo, na semana passada, o traficante Hemerson Silveira de Souza, que morreu em confronto com a PM dias depois em Araruama, já foi libertado após ser detido por PMs do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Na ocasião, em abril de 2013, os policiais responsáveis pela abordagem estavam à paisana e foram presos administrativamente após serem flagrados por agentes do batalhão local. À Corregedoria da PM, Hemerson, que à época não tinha mandado de prisão em aberto, mas sequer foi levado a uma delegacia, afirmou que os policiais exigiram dinheiro para não matá-lo.

Atualmente, os dois PMs que libertaram o traficante, o sargento Bruno Demke Bernardo e o cabo Cristiano Gonçalves Rosa, são réus, na Vara de Arraial do Cabo, pelos crimes de extorsão mediante sequestro e receptação. Ambos respondem ao processo em liberdade. Bernardo e Rosa chegaram a ser expulsos da corporação após o crime por decisão do comando, mas a Justiça determinou, em 2015, a reintegração dos agentes. Hoje, eles estão lotados na Assembleia Legislativa (Alerj). Bruno Demke é filho do deputado estadual Subtenente Bernardo (PROS) de Cabo Frio e Cristiano Gonçalves ocupa cargo de confiança no gabinete do Dr. Serginho, também de Cabo Frio.

Já Hemerson foi morto por policiais do 25º BPM dois dias após o homicídio do sargento Ricardo Oliveira dos Santos, em Araruama. O traficante foi reconhecido por colegas de Oliveira como um dos criminosos que atacou a patrulha. Durante revista feita pelos PMs no local após o socorro ao sargento, os agentes encontraram uma identidade falsa usada por Hemerson. Quando o traficante foi libertado pelos policiais do BOPE, em 2013, os agentes que detiveram os caveiras afirmaram, em depoimento que foram abordados por uma mulher, dizendo que seu cunhado havia sido forçado por homens encapuzados a entrar num carro preto. Quando chegaram no local apontado pela mulher, conhecido como Ponta da Alcaieira, em Araruama, os policiais flagraram Bernardo e Rosa com um carro clonado.

No momento da abordagem, os caveiras disseram que já haviam libertado Hemerson e que queriam “apenas dar um susto nele”. Já o traficante, em depoimento, afirmou que, após ter sido forçado a entrar no carro, “foi desacordado, tendo voltado a si numa praia”, onde um dos agentes anunciou que trabalhava no BOPE e teria ameaçado Hemerson de morte.

HOMENAGENS DE POLÍTICOS

Tanto Bruno quanto Cristiano já receberam homenagens de políticos. Um mês após ser preso administrativamente, o sargento Bruno Bernardo ganhou, por iniciativa do então vereador Chiquinho Brazão, uma moção de congratulações na Câmara Municipal e foi saudado como “um exemplo a ser seguido por seus companheiros de corporação”. Em fevereiro de 2011, foi a vez de Cristiano receber uma moção de louvor da Casa.

Durante a campanha para deputado estadual, Mauro Bernardo usava o seguinte slogan: “O terror da bandidagem agora vai ser o terror da corrupção”. Morador de Cabo Frio há 33 anos, ele passou para a reserva em 2018. Questionado sobre a cessão do filho para a Alerj logo após sua posse, ele negou qualquer irregularidade. Segundo Bernardo, Bruno não está em seu gabinete, “o que afasta qualquer indício de nepotismo, uma vez que não há qualquer subordinação hierárquica”. Quanto à acusação na Justiça, Bernardo afirmou que não há “condenação em primeira instância” e que, no país, “vigora o princípio da presunção de inocência”.

Dr. Serginho é natural de Cabo Frio e construiu sua carreira de advogado na Região dos Lagos. Sobre ter em seu gabinete um PM acusado de crime, ele diz que “todos têm direito à defesa, dentro do princípio da presunção de inocência”. Ainda segundo o parlamentar, “não há nenhuma condenação no referido caso, e o policial é respeitado na cidade”.

©Plantão dos Lagos
Fonte: Portal RC24H / Jornal O Globo
Fotos: divulgação