Unico acelera expansão internacional com avanço das fraudes digitais

O avanço das fraudes digitais, impulsionado pelo uso cada vez mais sofisticado da Inteligência Artificial, tem ampliado a demanda por soluções de verificação de identidade e segurança nas transações eletrônicas. Nesse cenário, a brasileira Unico, especializada em reconhecimento facial, intensificou sua expansão internacional e projeta crescimento superior a 30% na receita em 2026, após registrar desempenho semelhante no ano anterior.

Fundada em 2007, a companhia iniciou suas atividades desenvolvendo tecnologias de identificação digital para acessos físicos e operações financeiras. Em 2021, alcançou o status de unicórnio, denominação atribuída a startups avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão. Com aportes de investidores como SoftBank, General Atlantic e Goldman Sachs, chegou a um valuation de US$ 2,6 bilhões.

Desde 2023, a estratégia de crescimento passou a incluir aquisições internacionais. A Unico incorporou operações nos Emirados Árabes Unidos, em Israel, no México e na Argentina, país onde pretende inaugurar um escritório em 2027. Atualmente, mantém presença em 20 países, incluindo Estados Unidos, Portugal e Cazaquistão.

A internacionalização ocorre em um momento de transformação dos riscos associados à identificação digital. Ferramentas de Inteligência Artificial generativa passaram a permitir a criação de imagens e vídeos capazes de reproduzir características físicas de pessoas reais, aumentando a complexidade dos mecanismos de prevenção a fraudes.

“Nossas auditorias recentes revelam um novo perfil de fraudador: indivíduos comuns usando apps de deepfake para se passar por familiares e aprovar cadastros ou transações. É uma situação que abre espaço para o criminoso explorar a intimidade e o acesso aos dados da vítima. A boa notícia é que, mesmo com IA, essas tentativas são facilmente barradas em nossa infraestrutura”, explicou Fernanda Beato, general manager da Unico no Brasil.

A executiva ingressou na companhia em 2022, como diretora executiva de vendas, após passagens por empresas de tecnologia como Salesforce, Google, IBM e Oracle.

No mercado brasileiro, a Unico atua em 23 segmentos econômicos e atende aproximadamente 800 clientes. Entre eles estão os cinco maiores bancos privados do País e nove dos dez principais varejistas com operações nacionais. Segundo a companhia, sua base de identificação biométrica abrange o equivalente a 96% da população economicamente ativa brasileira.

A empresa também informa ter evitado R$ 19 bilhões em tentativas de fraude na América Latina durante o primeiro semestre de 2026. O indicador, divulgado pela própria Unico, dimensiona o volume financeiro das operações potencialmente fraudulentas identificadas por seus sistemas, e não representa receita ou recursos recuperados pela companhia.

Fraudes sofisticadas

A disseminação de ferramentas capazes de manipular imagens e reproduzir rostos tem levado empresas de segurança digital a aperfeiçoar seus sistemas de autenticação. O desafio envolve identificar tentativas de falsificação sem comprometer a velocidade das operações legítimas, especialmente em serviços financeiros e plataformas digitais de grande escala.

De acordo com Vinicius Miranda, gerente de produtos da Unico, a capacidade de identificar fraudes em tempo real constitui um dos principais diferenciais tecnológicos da empresa e sustenta sua estratégia de entrada em novos mercados.

“A gente desenvolveu uma tecnologia única para a detecção de fraude que ninguém mais consegue fazer, então inevitável que a gente se expanda globalmente”, afirmou Miranda, que trabalhou durante sete anos no Itaú antes de ingressar na companhia.

A Unico afirma que seus sistemas conseguem realizar a verificação biométrica em aproximadamente dois segundos, utilizando a captura facial para confirmar a identidade do usuário. A companhia também trabalha com a meta de alcançar uma taxa de falsa aceitação próxima de zero, indicador conhecido como FAR (False Acceptance Rate), que mede a possibilidade de um sistema autenticar indevidamente uma pessoa.

Embora a redução desse índice seja um dos objetivos centrais da indústria de biometria, a precisão dos mecanismos de reconhecimento depende de fatores como qualidade da captura, condições de uso e sofisticação das tentativas de fraude.

“A tecnologia vem mudando para o bem e para mal. Posso citar como exemplo os vídeos feitos com IA. Hoje em dia alguns são tão perfeitos que é difícil saber se são verdadeiros ou não. Isso é a prova de que precisamos de uma reação proporcional para interceptar fraudes”, disse Miranda.

Segundo a Unico, a frequência de tentativas de fraude classificadas como sofisticadas aumentou significativamente nos últimos meses. A empresa afirma que esses ataques cresceram 24 vezes na comparação entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, embora não tenha detalhado os volumes absolutos utilizados no levantamento.

“As fraudes sofisticadas cresceram 24 vezes se considerarmos o ano de 2025 e o primeiro semestre de 2026. Trata-se de uma ameaça para a sociedade como um todo e que nenhuma empresa consegue combater sozinha, sem parceiros tecnológicos. Por isso, mantemos nossos sistemas em revisão e estresse contínuos, simulando novos vetores de ataque antes que se tornem tendência no mercado; e combinamos efeito de rede com metadados para identificar e bloquear fraudadores em série”, afirmou Fernanda Beato.

Segurança no transporte

Além do setor financeiro e do varejo, a identificação biométrica também vem ganhando espaço em plataformas de mobilidade, nas quais a confirmação da identidade dos prestadores de serviço integra os mecanismos de proteção aos usuários.

Um dos clientes da Unico no Brasil é a 99, plataforma de transporte por aplicativo controlada pelo grupo chinês DiDi. A empresa utiliza reconhecimento facial para verificar a identidade dos motoristas e reduzir o risco de utilização indevida de contas cadastradas.

A tecnologia faz parte de um conjunto mais amplo de medidas de segurança adotadas pela plataforma, que inclui sistemas de telemetria para acompanhar padrões de condução e identificar comportamentos de risco durante as viagens.

“Lançamos a telemetria justamente para isso. Claro que as vezes a educação sozinha não resolve e por isso precisamos adotar práticas de governança mais rígidas, como o bloqueio de alguns motoristas. Mas, no geral, as ferramentas da 99, como o reconhecimento facial de motoristas, vem ajudando a garantir a segurança de usuários”, disse Maria Luiza Marcolan, gerente de prevenção e segurança da 99.

A adoção dessas ferramentas mostra como a autenticação digital deixou de ficar restrita ao acesso a contas bancárias e passou a integrar processos operacionais de diferentes setores da economia.

Para a Unico, a ampliação dessas aplicações representa uma oportunidade de diversificação de receitas e expansão geográfica. Ao mesmo tempo, o crescimento dos ataques baseados em Inteligência Artificial exige investimentos contínuos em pesquisa, atualização tecnológica e capacidade de resposta a novas modalidades de fraude, fatores que devem influenciar a competitividade das empresas especializadas em identidade digital nos próximos anos.





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