A Europa fez ciclovias. Agora faltam mecânicos para consertar as bicicletas

A Europa fez ciclovias. Agora faltam mecânicos para consertar as bicicletas

A Europa conseguiu convencer milhões de pessoas a trocar o carro pela bicicleta. Agora descobriu um problema inesperado: faltam mecânicos para mantê-las rodando.

O continente precisará de 105 mil novos profissionais até 2032 para acompanhar a demanda, segundo um estudo da iniciativa NextGen Mechanics. Hoje, o setor emprega cerca de 175 mil mecânicos e já enfrenta um déficit estimado em 45 mil. Considerando também a reposição de quem deixará a profissão, a força de trabalho terá de chegar a aproximadamente 247 mil pessoas nos próximos seis anos.

Em boa medida, o gargalo é consequência do sucesso da bicicleta como meio de transporte. Em Paris, o volume de ciclistas chegou a dobrar em um ano. Em Londres, já há mais deslocamentos diários de bicicleta do que de automóveis particulares. A oferta de oficinas e profissionais qualificados, porém, não acompanhou esse crescimento.

O resultado aparece na rotina dos ciclistas. Outro levantamento, o State of the Nation 2026, da Shimano, fabricante de equipamentos para bicicletas, estima que 212 milhões de europeus enfrentam algum obstáculo relacionado à manutenção das bicicletas. Cerca de 121 milhões pedalam menos por causa disso, 65 milhões reduziram bastante a frequência e 7,6 milhões simplesmente deixaram de pedalar.

O problema também mostra como a bicicleta deixou de ser um equipamento tão simples de consertar. Bicicletas elétricas, cargueiras, freios hidráulicos e sistemas eletrônicos exigem mais conhecimento técnico. Ao mesmo tempo, a profissão não acompanhou essa transformação.

Entre profissionais e empresas ouvidos pela NextGen Mechanics, 72,5% apontaram baixos salários ou pouco reconhecimento profissional como causas da escassez. Outros 55% citaram a falta de formação e qualificações adequadas. Também pesam o esforço físico para lidar com bicicletas elétricas mais pesadas e a pressão para entregar os reparos rapidamente.

É uma espécie de segunda etapa da infraestrutura cicloviária. Não basta construir ciclovias e colocar bicicletas nas ruas. É preciso criar um ecossistema capaz de mantê-las funcionando.

No Brasil, entretanto, o desafio ainda está principalmente na primeira etapa.

As capitais brasileiras somam cerca de 4.266 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas exclusivas e segregadas, segundo levantamento da Aliança Bike. A malha cresceu apenas 5% em 12 meses. Nenhuma capital tem infraestrutura exclusiva para bicicletas em 10% de suas vias e cerca de dois terços delas não chegam a 3%.

São Paulo lidera em extensão, com aproximadamente 737 quilômetros, seguida pelo Distrito Federal, com 626,5 quilômetros, Fortaleza, com 477,6 quilômetros, Rio de Janeiro, com 319,4 quilômetros, e Salvador, com 308,5 quilômetros.

Quando se considera o tamanho da rede viária, porém, o quadro muda. Fortaleza aparece à frente, com infraestrutura cicloviária em cerca de 8,3% das vias, seguida por Salvador, com 7,1%, e Florianópolis, com 6,9%.

O déficit fica ainda mais evidente quando a conta parte das pessoas, e não dos quilômetros. Dados do Censo do IBGE indicam que menos de 2% da população urbana brasileira mora em vias com ciclovias ou ciclofaixas.

Por outro lado, a demanda existe. Na Região Metropolitana de São Paulo, pesquisas de mobilidade registraram crescimento de cerca de 25% no uso da bicicleta como meio de transporte. Sistemas de compartilhamento também vêm registrando volumes elevados de viagens, enquanto as bicicletas elétricas ajudam a tornar trajetos mais longos e cidades com muitas subidas mais acessíveis.

A bicicleta entrou também no planejamento climático federal. O Plano Clima incorporou metas de mobilidade ativa até 2035, associando o aumento do uso de bicicletas à redução da dependência dos veículos mais poluentes.

Construir quilômetros de ciclovias, no entanto, é apenas o começo. Se a bicicleta realmente ganhar escala como transporte urbano, será necessário pensar em estacionamento, integração com transporte público, segurança, oficinas, peças e mão de obra qualificada.

Afinal, uma cidade pode até construir uma ciclovia. Mas, quando o pneu fura, alguém ainda precisa consertá-lo.





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