“Pênalti é tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente do clube.”
Essa frase, pertencente ao folclore do futebol, teria sido proferida por Neném Prancha (1906-1976), famoso roupeiro, massagista e olheiro do Botafogo no século passado.
Soube-se depois que Neném jamais falou tal sentença, sendo ela uma criação de alguém, talvez do treinador e jornalista João Saldanha, e que, uma vez questionado, declarou: “O que eu falei é que o pênalti é tão fácil que até o presidente pode bater”.
Que o diga Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
Faz um tempinho, viralizou um vídeo em que ela, indignada com a incapacidade dos jogadores de converterem as penalidades, olhando para a câmera disparou: “O gol é muito grande. Como é que pode perder pênalti? Não dá, hein?”.
Então Leila bate dois pênaltis, sem força alguma. O goleiro/mascote deixa a bola entrar, e Leila comemora, pulando efusivamente: “Yes. Yes”. Caricato.
Pouco mais de três anos atrás, publiquei um texto em que, considerando as disputas de pênaltis no período de 2011 a 2021 de 28 grandes clubes do futebol mundial, o Palmeiras era o 27º em êxito, à frente apenas do River Plate.
Depois disso, o alviverde paulistano participou de quatro decisões por pênaltis e perdeu três.
Leila tinha razão em reclamar. Ainda tem. No começo deste mês, o jovem Estêvão, revelação do time, errou um pênalti que daria a vitória contra o arquirrival Corinthians no Paulistão.
Palmeiras à parte, o pênalti é um personagem desagregador no futebol. Por quê?
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Devo concordar com Neném Prancha quando o quesito analisado é facilidade. Não há jeito mais fácil de fazer gol no futebol que de pênalti.
A bola fica a apenas 11 metros da linha do gol, que mede 7,32 m de largura por 2,44 m de altura. O goleiro só pode se movimentar, para tentar a defesa, depois que o cobrador chutar.
Por isso, pela enorme chance de fazer o gol, muitos jogadores querem cobrar pênaltis. Alguns até brigam com os próprios colegas de time, verbalmente e/ou na imposição (pegando a bola e não a soltando de jeito nenhum), para ter o direito de chutar.
Não é incomum haver conflito, independentemente de a bola parar nas redes. Neste começo de ano, alguns casos chamaram a atenção.
Aqui no Brasil, em Corinthians x Velo Clube, pelo Campeonato Paulista, Romero não permitiu que Yuri Alberto, batedor oficial do Timão, cobrasse. O paraguaio desperdiçou. Depois do jogo, levou indireta de Yuri, que mencionou o “ego”, em rede social. Conflituoso.
Na Champions League, no jogo na Itália em que o Atalanta perdeu de 3 a 1 do belga Brugge e foi eliminado, o nigeriano Lookman desperdiçou um pênalti, que deveria ter sido cobrado por outro jogador na opinião do treinador.
Gian Piero Gasperini soltou o verbo, afirmando que o atacante é “um dos piores cobradores de pênalti que vi na vida”, em referência ao aproveitamento nos treinos. Conflituoso.
No Campeonato Italiano, a Udinese visitou o Lecce e ganhou de 1 a 0, em pênalti convertido por Lorenzo Lucca, que só pôde chutar após veemente altercação com colegas de equipe –quem geralmente bate é o capitão, Florian Thauvin.
Lucca celebrou sozinho, e a situação ficou tão desconfortável que o técnico alemão Kosta Runjaić imediatamente o substituiu –aos 35 minutos do primeiro tempo. Conflituoso.
Até quando convertido, o pênalti traz discórdia.
Por ser assim paradoxal, é melhor que a incumbência seja mesmo do presidente do clube. Até porque ninguém em sã consciência vai criar conflito com ele(a).
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Folha de S.Paulo